Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Foto: Internet Archive
Coração que se acelera. Nem sei por onde começar. O melhor a se fazer é perguntar se aceita ajuda. É isso que sempre faço, porque se não fizer me sinto culpado. Uma pequena introdução de um relato do sofrimento alheio. É manhã, bem cedo. Caminho pela calçada de uma avenida movimentada do Rio de Janeiro. Ao me aproximar da entrada do banco escuto soluços. Parece ser choro, penso eu. Me aproximo e vejo um quadro que me choca: Uma senhora, sentada, chora compulsivamente. Suas mãos tocam sua barriga que parece estar nos últimos meses de gestação. As lágrimas correm. Percebe-se que chorou muito.
Caminho uns três passos à frente e sempre vem aquele meu pensamento: “Preciso ajudar! Preciso!”. Retorno, chego bem perto da senhora, me agacho e pergunto se precisas de ajuda. Ela chorando responde “não”. Não me convenço e pergunto novamente seguida de uma resposta negativa.
EU – Que houve?
ELA- Nada.
EU – Por que choras?
ELA- Não houve nada.
EU – Senhora eu quero lhe ajudar.
ELA – Não tenho nada.
Levanto. Olho para os lados para procurar ajuda e nada. As poucas pessoas que passam nada fazem. A rotina parece não incomodar – lhes com tal situação. Fico parado por instantes olhando ela, mas não adianta. Ela quer ficar sozinha em seu sofrimento. Saio, meio confuso, com um turbilhão de sentimentos, um misto de angústia e impotência.
Situações como essa eu fico vulnerável. Coloco-me no lugar da pessoa. Já ajudei tanta gente na rua, já fui acompanhante de acidentados em ambulância, já contatei familiares, já esperei resgate… Tudo porque na hora, naquele momento, nada passa pela minha cabeça que não seja ajudar. Nessas situações percebi a frieza de alguns, a morbidez de outros, a especulação, o descaso, o aproveitador, o falador… Percebi também, a solidariedade de muitos, a bondade, a compaixão, o carinho de outros…
Vendo aquela senhora, ali, sentada, com sua atitude decidida de não aceitar ajuda, questionei-me, andei passos largos, coração disparado e pensando: O maior do sofrimento é aquele visto pelos olhos alheios, é aquele em que outros estão vendo seu momento de fraqueza, de último resquício de esperança… Mas com um porém – O controle do seu próprio sofrimento, concedendo a ele dignidade, orgulho. Sendo assim, não resta sentir pena, e sim, respeito.
O coração continua acelerado. O melhor a se fazer é respeitar a ajuda negada.
Falando em sofrimento…
Esqueci de dizer que a senhora era uma pessoa em situação de rua.
Fellipe Cartier é jornalista, ator e diretor.
Texto publicado 14/03/2010 – www.fellipecartier.blogspot.com



