Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Foto: Internet Archive
Ao reler “Notas sobre a experiência e o saber de experiência” de Jorge Larrosa Bondía, em relação com o texto “Arte Poética III” de Sophia de Mello algumas considerações foram levantadas. Dentre tantas citações de Jorge algumas chamam a atenção como: Ninguém pode aprender da experiência de outro (…). A experiência é uma abertura para o desconhecido (…). “A velocidade e o que ela provoca, a falta de silêncio e de memória são também inimigas mortais da experiência”. Sophia assim transcreveu sua experiência em palavras, porém tal experiência é singular. A experiência de Sophia não foi vivida por mim. Não estava em tal circunstância. Isso quer dizer que tal leitura pode me tocar ou não.
O primeiro texto diz que através das palavras “nos colocamos diante de nós mesmos, dos outros e diante do mundo(…)”.A organização das palavras no Arte Poética III pode muito bem ir ao encontro da citação de Walter Benjamin no texto oposto em que diz que “a experiência é cada vez mais rara. Tudo está organizado para que nada nos aconteça”. Quando Mello escreve “(…) do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável (…)”, tal citação é de extrema particularidade e de certa forma organizada. Organizada porque tais palavras foram selecionadas de acordo com a vontade da artista, afinal “o saber da experiência é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto em quem encarna”. Somente Sophia viu a maçã vermelha e o brilho do mar. Somente ela sentiu a felicidade irrecusável. A experiência é dela. E essa “relação justa” da artista com a natureza, é o modo que ela dá sentido na relação das palavras e as coisas.
O recorte de Sophia suspende a dinâmica do “sujeito moderno”, termo utilizado por Jorge Larrosa, de querer mudar as coisas. Ela interrompe esse fluxo caótico para pôr em prática o olhar atento, a atenção e a delicadeza, dando o tempo necessário. “Aquele que vê o fenômeno quer ver todo o fenômeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor”, afirma a artista. O sentido que a autora apresenta textualmente é de acordo com a sua experiência. O tempo dedicado a essa memória vai contra a velocidade com que os acontecimentos e a obsessão pela novidade, pelo novo, que caracteriza o mundo moderno. Ela foi contra esse percurso porque suspendeu um fato, desfrutou desse tempo, narrou esse tempo e não como mercadoria onde o acúmulo de informações se vale como experiência. Também pode revelar a importância da relação da artista com a experiência, pois segundo ela, “não depende de nenhum código, nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido”. Após esse trecho Sophia faz relação com o tempo que vivemos: tempo de uma tomada de consciência. Faz referência com o que Jorge cita do sujeito moderno que sempre ambiciona a mudança das coisas, com afã de mudanças. “O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através de sua obra, a vida e o destino dos outros”, define Mello.
Para Sophia a lógica íntima, interior, deve confundir-se com o equilíbrio das coisas com a ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Alegria e sofrimento devem ser vividos com paixão. Em comparação – Larrosa diz que o sujeito ama sua própria paixão “O sujeito apaixonado não é outra coisa e não quer ser outra coisa que não a paixão (…) O sujeito passional tem também sua própria força, e essa força se expressa produtivamente em forma de saber e em forma de práxis”.Poderia simplesmente deixar esse papel em branco, devido a tamanha possibilidade de perspectivas levantadas. Como Jorge fala, poderia muito bem confundir experiência com excesso de informação. Por esse motivo cairia numa armadilha, “como se o conhecimento se desse sob a forma de informação, e como se aprender não fosse outra coisa que não adquirir e processar informação”.
O ato de lê-los, com intuito de analisá-los me possibilita um posicionamento frente a ambos. Sendo assim, posso simplesmente não tecer nenhum “posicionamento”, ou até mesmo, não tê-lo. Posso também, como leitor, criar a minha imagem disso tudo (digo imagem de imaginação mesmo), porém nunca será a experiência da autora. Recria-se então, uma experiência (Felipe) da experiência (Sophia). Nessa perspectiva o texto deixou de ser um acúmulo de informações para se tornar também experiência para quem o leu.
Fellipe Cartier é jornalista, ator e diretor.
Texto publicado 10/08/2013 – www.fellipecartier.blogspot.com



