Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Foto: Arquivo pessoal
João De Castro, autor do livro “Fragments Épars / Fragmentos Espalhados” faz uma reflexão da criança que foi no bairro da Penha no Rio de Janeiro, com o adulto vivendo em um país desconhecido. Indico a leitura!
Poderia dizer que a biblioteca de seus avós serviu de pano de fundo para sua história, *“aqueles pequenos detalhes, mergulhados em sensações conhecidas e, muitas vezes, desconhecidas”*. A (des)conhecida fragilidade daquele menino, criado no bairro da Penha no Rio de Janeiro, era fortalecida perante a sequência de personagens inspiradores: a sua ancestralidade representada na obra de Solano de Andrade, o intimismo de Cecília Meireles, a liberdade crítica de Fernando Pessoa e a análise sociopolítico de Castro Alves. E ‘De Castro’ carrega a herança dos seus e de tudo que passa aos seus olhos. Coincidência ou não, todos e tudo serviram de roteiro para seus rabiscos de outrora. Hoje, contada em verso e prosa, seus momentos de fuga: *“Com a pele já enrugada, porém moça de alma e de inocência. Sem muitas palavras, sem muito a dizer. E sem muito porquê”*. Ledo engano! O lirismo de João De Castro universaliza o íntimo, a perturbação, o descompasso das palavras, da métrica, da pontuação…
Aquele menino franzino, moça de alma e inocência, Ser em pleno desconforto, abre sua caixa de pandora de pensamentos obscuros, melancólicos e cheio de reviravoltas (até quando não há). Nela, o caráter purificador de suas palavras promove o que Nietzsche chama de efeito catártico, expurgando o que cala, o que falta, o que move. *“Mesmo que no desencontro da circunstância”*, esse refluxo desmedido, fideliza o pensamento in natura do autor: Palavras tornam-se sinapses; métrica em (des)ordem; Arestas em memórias. Um eterno revisitar em si e uma saudade lacônica de algo ou de alguém: Do Rio, do vazio pueril, dos familiares, da existência, dos amigos… Essa leitura justa, permite que o leitor revisite o seu lado mais íntimo e por vezes releia (e volte a ler). Ele nos capta pela inconclusão das adversidades da vida e pela complexidade dos sentimentos. De certo, quase que um sonho Nietzschiano onde a consciência revela devaneios sob uma perspectiva onírica – pulsão apolínea da arte. A compreensão do meio circundante fez com que João traduzisse sua história, seu enredo, seus personagens e suas inspirações em uma obra que expõe as feridas, os instintos e o vazio existencial.
Bendito sejam os Solano’s, os Fernando’s, as Cecília’s e os Castros (principalmente seus avós) que elevaram seus ideais ao exercício da virtude humana. Bendita seja a biblioteca de seus avós que valorizou seu desenvolvimento intelectual e conectou consigo e com o mundo. Bendito seja seu talento, ‘agraciado por Deus’ ou ‘a graça e misericórdia de Deus’! Não à toa o significado do seu nome. Seja na vida ou na literatura, João consegue manifestar versões de si, perpassando ele em nós, elevando nossos pensamentos à identificação, como ele mesmo diz: *“o que vai restar não serão lembranças em mim, e sim, as minhas em outros”*. E ainda sim… *“(…)partirei por terras adentro, desbravando o mesmo caminho de ontem e de hoje e de provável amanhã. E por esse ido tendes florescer para meu regresso. E te encontrar.”* E nos encontramos meu amigo. Uma honra que seja em obra, em vida, em legado… Um privilégio fazer parte desse mergulho. Bem-dito teus ditos que digo: Nossa amizade/irmandade, agora, torna-se eternizada em folhas, em palavras, em poemas… em um elo poderoso – A ARTE.
Fellipe Cartier é jornalista, ator, diretor e assinou o prefácio do livro “Fragments Épars | Fragmentos Espalhados”.



