Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Foto: Internet Archive
O livro “Monstros do Armário” de Eduardo Cartier traz uma relação direta com seu mundo físico e interno. Tem como objeto de análise sua carreira enraizada no esporte, onde pensamentos, conjecturas e reflexões são colocados em variados contextos. Leiam!
Cada monstro em nossa vida é uma insegurança e geralmente optamos por sublimá-la, escondê-la. Não aqui nesse ‘armário’. Talvez aquele menino franzino, saído de Santa Maria, no estado do Rio Grande do Sul, no ano de 1995, tenha contribuído para essas páginas que se seguem. Agora, Sujeito Adulto, seu aprisionamento abre (sua porta da alma) precedentes para (re)viver memórias, momentos, questionamentos e principalmente – a coragem do desnudamento. “É! Refletir convoca aquele que reflete a uma intimidade perturbadora, pois traz consigo seus gritos, portanto exposições. Provoca quando explana aos diversos ventos(…)”, pontua Eduardo, que coloca-se nesse livro por inteiro, aos pedaços, juntando cacos, colando fatos, como um espécie de quebra cabeça em meio a (con) textos.
Uma obra dividida em artigos que, ‘surfa’ no eclético, incomoda os incautos e provoca os ‘viventes’. Cada artigo, um testemunho; Cada testemunho, uma percepção; A compreensão do seu mundo, através de sua micro realidade sensível aos seus olhos…Tudo fica, nada passa: ‘suas atividades professoráticas’, ‘patologias do corpo’, o ‘Outro’ o bar, a relação com a Arte, com o Esporte, com o mundo, com a família… Enfim, a cada digressão – um juiz onipresente – com vereditos opostos, todos certos e errados. Uma narrativa que une linguagem acadêmica e factual, permitindo ao leitor mergulhar no íntimo e no protagonismo do autor. Nessa epopéia, surgem menções de personagens coadjuvantes: Baumann, Schopenhauer, Nietzsche, Foucault, Marx, Freire, dentre outros. Em troca, ele – o autor – oferece o benefício da dúvida onde tal, pode ser personagem, vítima, vilão ou tudo junto.
A relação binária nesse contexto é representada por dois personagens na obra – Fléris e Larangeira – que representam o embate do Ego e Alter Ego, Ser e Parecer, Estar e Mal Estar. De um lado, um amigo imaginário que desperta seu lado mais íntimo e sem aresta, fruto do inconsciente que resgata e expurga seus monstros interiores, vontades reprimidas; Do outro lado o desmembramento dos fatos sob a ótica da onipresença das ideias, do desnudamento das emoções. Duas “pessoas” diferentes, com visões dicotômicas, no corpo de um ‘Ser’ inconformado. Em comum: a racionalização dos fatos, cuja interpretação é subjetiva e naturalmente em(viés)ada. O entrecorte do tempo-memória, movimenta os fatos, fazendo com que estes personagens fiquem onipresentes entre um artigo e outro. Uma das vantagens de exterminar os monstros que estão em seu armário é relatar ou sinalizar em palavras aquilo que ele pensa e diz: posso ser aquilo que sou em alguns momentos sem me preocupar em não ser aquilo que sou diariamente, um personagem que às vezes gostaria de ser e outras não. Sob o viés dessa afetação, experiências do autor perpassam e não passam despercebidos, amenizando seu lado emocional, mas jamais anulando-o.
A metafísica, aqui, vai além do conhecimento relacionado à vivência material do mundo, pelo contrário, transcende os graus do conhecimento: primeiro pelo teor documental do livro; segundo, porque dezenas de razões justificam minha admiração pelo Eduardo; Mais precisamente, 42 anos de convivência, ligado a mim uterinamente, da mesma mãe Suzana (in memorian) e do mesmo pai Iguassú. Somos afastados na maternidade por um pequeno hiato de 7 anos, porém próximos na espiritualidade, no amor e na lealdade.
O mais interessante é que na obra, a estrutura narrativa dividida em artigos, faz jus à sua postura nos encontros em família, onde prefere – ora a reclusão, ora a comunhão. Sua capacidade de observar é a mesma que incapacita de parar de racionalizar momentos que apenas são. Tudo por ser uma mente inquieta, que não relaxa e, assim como os preceitos de Nietzsche, expurga através da literatura, um modo de Ser/Estar no mundo. Afinal, “precisamos nos socializar, relacionar, para de fato, tornarmos sujeitos humanos, portadores de intenções, ou seja, teleológicos e coletivos, pois até os seres não racionais são coletivos’. Nem que para isso seja necessário expurgar os monstros de seu armário através das palavras.
E sob essa perspectiva, através dele, lembro do filósofo Arthur Schopenhauer que decidiu se afastar da civilização para viver só e em meio a natureza. Até porque toda a experiência artística é puramente solitária. Como o próprio filósofo supracitado afirma: “viver sozinho é o destino de todas as grandes almas”. Sim, Eduardo é uma grande alma! Um grande Ser que usa sua mente para subverter o laconismo da vida. Seu talento nas quadras, nas salas de aulas, nos projetos socioculturais e esportivos, deixam um legado poderoso para quem fica, participa e testemunha. Soltaram-se os monstros e abriram-se as portas do armário do menino franzino de outrora, mais conhecido por ‘Dudu’, ‘Mano’ ou ‘Fera’. O mesmo acaba de eternizar seus preceitos e possibilitar-me a participação neste documento em forma de livro. Um irmão, um amigo, um talento, um pensador… mais uma prova de amor para a posteridade.
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Fellipe Cartier é jornalista, ator, diretor e assinou o prefácio do livro “Monstros do Armário”.



