Por Jean Schmidt e Maria Esther Cortez | Mídia Oficial | Fotos: Folha de São Paulo, Internet Archive e Projeto Autobahn
Com a sua chegada no Brasil nos anos do regime militar, bandas como Ratos de Porão e AI-5 foram base de resistência.
O Punk tem sua origem em Nova York, na década de 70, com indivíduos do cenário underground, que se opunham ao rock progressivo da época. No entanto, o estilo rapidamente se popularizou, chegando à Inglaterra com bandas como Sex Pistols e The Clash, adquirindo um elemento extra, a criticidade ao governo.
No Brasil, o Punk chega no final dos anos 70, iniciando entre os jovens da periferia paulistana, principalmente da Vila Carolina. O movimento ganha forças e se expande pela cidade de São Paulo, movido pela insatisfação de uma juventude que se via esquecida no cenário social do país. Então, surgiram bandas como Restos de Nada, Cólera, Ratos de Porão e muitas outras que ganharam um grande reconhecimento no cenário musical.
O ABC também foi fortemente marcado pela presença do movimento Punk. No maior complexo industrial do país, a classe operária se encontrava insatisfeita com a crise instaurada no fim do milagre econômico. A região fervilhava com o surgimento da figura de Lula, com as greves operárias e com as reivindicações sindicais aos direitos dos trabalhadores. Toda essa movimentação refletiu sobre os jovens, e serviu como combustível para a revolta do movimento no ABC.

Dessa forma, o Punk já entra no país com o aspecto político em destaque. Em meio a esse cenário , onde a música sofreu censuras extremas, ele surge como forma de resistência. Um exemplo dessa luta é a banda AI-5, o nome sem dúvidas nos faz referência ao Ato Institucional 5, um dos momentos mais violentos do regime. Em uma entrevista ao R7, o membro da banda, Fausto Celestino, comentou sobre esse nome: “A ditadura militar foi o pior cenário para uma banda Punk chamada AI-5. Na época, várias apresentações ao vivo foram interrompidas pela polícia. Tivemos até que fugir de lugares pela janela do banheiro!”.
Além disso, ele também comentou sobre o aspecto político de sua música, e como isso pode se aplicar nos dias de hoje: “Em algumas letras, só bastaria mudar o nome do protagonista… Infelizmente, a situação do País não mudou, aliás, só piorou. Dessa forma, acho que existe um campo vasto para protestar contra o que está acontecendo no momento.”

No entanto, também existiram muitas outras bandas que criticavam o governo e o cenário político brasileiro da época. Podemos analisar por exemplo a música Retrocesso, de 1979, da banda Ratos de Porão: “Por trás da festa do tri/ Tortura e podridão”. No ano de 1970, o Brasil ganhou a Copa do Mundo, conquistando seu terceiro título, a alegria gerada pelo futebol acabou fazendo com que muitas pessoas desviassem sua atenção do cenário interno do país, de violência e um regime político extremista.
Em São Paulo, o contexto da ditadura militar trouxe uma característica diferente do que era visto no movimento Punk dos Estados Unidos e da Inglaterra. Os ideais contra o autoritarismo, somados ao discurso que contestava o quadro social do país, foram comportamentos tidos como inaceitáveis pelas autoridades, e com o intuito de se protegerem, os punks se uniram em gangues, como a Carolina da Morte e o Phuneral Punk em São Paulo e no ABC os Anjos, de São Bernardo do Campo e o Punk Carniça em Mauá.

Essa característica, porém, contribuiu para que o movimento perdesse sua unidade na grande São Paulo. Assim, ao passo que, no estrangeiro, o Punk teve certa longevidade que resultou no seu sepultamento, com sua estética e atitude característica dos seus integrantes absorvida pela mídia de massa, no Brasil o movimento ficou marcado por sua violência. A segregação das gangues era marcada principalmente pela luta entre o subúrbio e o ABC, pela posse do centro da cidade. No documentário “Botinada”, José Rodrigues, da banda Garotos Podres, de Santo André, explica essa falta de união: “Eu acho que no fundo no fundo a gente era moleque, e nosso nível de politização era muito rudimentar”.
Em meio ao cenário de ditadura, o Punk assumiu uma postura de rompimento, tanto estética quanto comportamental. Apesar de ter representado parte da resistência ao regime militar, com seus adeptos, marcados por sua postura combativa, sendo fortemente perseguidos pela polícia, enquanto movimento, uma questão muito forte para o Punk ainda foi a preocupação com a sobrevivência. A falta de união dos grupos fez com que ele não fosse tão lembrado na luta antiditatorial quanto outros movimentos, como a tropicália. Ainda assim, o grito Punk por liberdade individual desempenhou um papel fundamental no momento derradeiro dessa luta



