Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Fotos: Arquivo pessoal
Van Loo desenvolve uma pesquisa de doutorado dentro do Programa de Mudança Social e Participação Política da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, onde procura elucidar o nível e a forma de mobilidade econômica de artistas negras e negros, especialmente área da dança.
Ele não chega – toma conta do espaço, do ambiente, do palco. Ele não promete – vai, faz e realiza. Domina a situação! A conexão com ele foi instantânea, marcada por sua inquietude contagiante e seu espírito extremamente proativo. O palco desse encontro – o Centro Cultural São Paulo (CCSP), onde ele atua como curador de Dança. Trabalho reconhecido por colegas, pela classe artística e por especialistas no assunto, afinal sua atuação à frente da curadoria rendeu o “Prêmio Especial APCA: Programação de Dança do Centro Cultural São Paulo” em 2023. Um dos prêmios mais importantes do país. É impressionante como toda a sua formação acadêmica e profissional se refletem em seu modo de ser/estar no mundo, consolidando-o como uma figura indispensável na cena cultural. Basta ver o encontro que promoveu com os baluartes da Dança Nacional e Internacional, no mês passado, na abertura do “Abril Pra Dança 2025”. Eu estava. Eu vi e foi lindo! Um feito jamais visto no CCSP! Sem dúvida é um Ser especial, de muitos talentos. Sua versatilidade é notável: dançarino, professor, coreógrafo, especialista em Street Dance e Diversidade, além de apresentador de eventos artísticos, esportivos e corporativos. É doutorando e mestre em Ciências Sociais pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, além de profissional de Educação Física e Esportes formado pelas Faculdades Integradas de Guarulhos/SP, e terapeuta Corporal pelo Centro de Treinamento e Desenvolvimento Humano Cochicho das Águas/SP. O fundador da Bombelêla Dance Company, de São Paulo, hoje, é meu convidado, meu amigo e meu colega. Tenho a honra de apresentar, aos passos de plié, miudinho, footwork, drops, step touch… embalado por uma trilha chamada “Admiração”, em ritmo acelerado de samba, axé, bossa, street, ballet … E 1, e 2, e 3… Com vocês: o incrível Mark Van Loo!

FELLIPE – Se sua vida fosse um espetáculo de dança, como seriam os “movimentos” da criança que você foi?
MARK – Seriam ágeis, fortes e expansivos, pois cresci com uma ideia de que seria um atleta profissional, possivelmente do futebol, minha paixão até hoje. Para crianças negras e periféricas nascidas nos anos 70 em São Paulo, a única referência de sucesso eram os atletas ou artistas negros como Pelé, Romário, Ronaldo, Mike Tyson, Michael Jordan, Michael Jackson, Prince, entre outros. Não tínhamos outra perspectiva. Ninguém nos dizia ou nos incentivava a ser empresário, professor, advogado, arquiteto, engenheiro ou cientista. Crianças negras tinham como única perspectiva dar certo na vida por meio de algo relacionado às habilidades do corpo. Ou o normal seria você se tornar pedreiro, borracheiro, mecânico e, no caso das mulheres negras, faxineira, empregada doméstica e etc.

FELLIPE – Sei que sua mãe também é artista, faz dança e está ligada às múltiplas artes. Isso facilitou o apoio na carreira artística? Teve o apoio da família?
MARK – Minha mãe sempre foi uma pessoa muito musical e adora dançar, se divertir. Minha família também sempre foi festeira e minhas lembranças de infância são as mais positivas possível, pois volta e meia acontecia um “baile black” onde tocava muito samba rock (Jorge Ben, Bebeto e Tim Maia), Funk (James Brown, Jimmy Bo’ Horne e Earth Wind & Fire) e as chamadas “lentas” com Lionel Ritchie, Betty Wright e Johnny Rivers. Eu amava esses momentos, pois sabia que meus tios e primos mais velhos iriam começar a dançar e eu. Pequenininho, ficava totalmente deslumbrado olhando tudo aquilo. Essa foi a minha escola na música e na dança.
FELLIPE – No mundo da dança, você já se percebeu em situação de preconceito e/ou racismo?
MARK – Acontece o tempo todo. Mas antes eu não tinha capacidade de leitura das situações. E à medida que fui crescendo no cenário profissional essas situações foram ficando cada vez mais explícitas, ao mesmo passo que fui ficando cada vez melhor informado sobre essa questão do racismo estrutural, o que me ajudou muito a não sofrer na medida errada e não permitir ser prejudicado.

FELLIPE – A desigualdade social e econômica que existe em nossa sociedade reflete no mundo da dança? Quais os desafios da Dança atualmente?
MARK – Estou desenvolvendo uma pesquisa de doutorado dentro do ProMuSPP – Programa de Mudança Social e Participação Política da EACH – Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP – Universidade de São Paulo, onde procuro elucidar o nível e a forma de mobilidade econômica de artistas negras e negros, especialmente área da dança. E a pergunta é: “Por que artistas negras e negros são, historicamente, tão vulneráveis financeiramente e parecem sempre viver numa espécie de montanha russa econômica, com picos efêmeros de bons ganhos financeiros e longos períodos de insegurança monetária?” Pois é isso o que empiricamente tenho constatado junto à comunidade da qual faço parte. E com certeza não existe uma resposta taxativa, pois economia é por si só um assunto complexo, e a questão negra traz muitas camadas de sócio-políticas que é necessário considerar. Atualmente, os artistas da Dança equilibram-se entre “jobs” em shows e eventos aleatórios, raras oportunidades em trabalhos no mercado publicitário (comerciais de TV e internet e etc), difíceis acessos a editais de fomento e baixa renda advinda de atuação como professores em colégios e estúdios de dança. São raros os profissionais negras e negros empregados em regime CLT, seja em companhias de dança ou outras instituições.
FELLIPE – Como bailarino você já realizou inúmeros trabalhos artísticos, muitos como protagonista. Qual a sua opinião para se ter um protagonismo racialmente democrático no Brasil?
MARK – Sempre foi e sempre será uma luta hercúlea, porque embora tenhamos certa notoriedade como dançarinos, ainda não somos maioria negra nos elencos das grandes companhias de dança, as chamadas companhias estáveis. Não somos maioria entre os mais bem pagos coreógrafos. Não somos maioria entre os diretores artísticos, Não somos maioria entre os grandes gestores e produtores dos equipamentos públicos e privados. Somos maioria somente quando o assunto é pobreza, precariedade e violência. A mudança começa e terá força somente a partir do reconhecimento e constrangimento da branquitude frente aos seus privilégios. Mas muitos nem se importam, pois está bom assim pra eles.
FELLIPE – Como você avalia as políticas públicas que visam ampliar a inserção dos artistas no mercado de trabalho e conectá-los aos produtores e diretores de elenco?
MARK – São necessárias, urgentes e, ao mesmo tempo, já demasiado tardias, pois isso deveria ter tido início em 13 de Maio de 1988… o resto é história.
FELLIPE – Devido ao seu trabalho como Curador de Dança do Centro Cultural São Paulo, em 2023 recebeu o “Prêmio Especial APCA: Programação de Dança do Centro Cultural São Paulo”. Como você avalia sua trajetória até chegar a esse reconhecimento?
MARK – O Prêmio de Melhor Programação de Dança da cidade de São Paulo em 2023 atribuído ao CCSP pela Associação Paulista de Críticos de Arte foi a coroação de um trabalho feito com total devoção à causa pública, qual seja: a de contribuir efetivamente, neste caso da curadoria de dança, para dirimir as desigualdades tão alarmantes em nossa sociedade, sobretudo quando olhamos para as questões de raça, classe e gênero. Neste sentido, apostamos em uma programação que chamo de “curadoria horizontal”, a que se esforça para dialogar com as mais diversas linguagens, culturas e possibilidades artísticas. Para além disso, vale ressaltar também que este prêmio só foi possível por conta de nossa convicção sobre o quê, como e quando estávamos fazendo não importasse as intempéries no caminho. Como não desistimos, tivemos a felicidade de ver artistas, público e crítica agraciarem a nossa programação.

FELLIPE – O Instituto Mark Van Loo é um programa que capacita dançarinos, professores e coreógrafos, e facilita o processo de construção de atitudes cooperativas, solidárias, autônomas, de respeito mútuo e o protagonismo juvenil. Como surgiu essa ideia?
MARK – Sim, trata-se do Programa Incubadança, um projeto para a profissionalização de dançarinos, professores e coreógrafos que comecei em 1999 a partir de um trabalho junto a crianças e adolescentes da comunidade da Escola de Samba Rosas de Ouro, na Freguesia do Ó, na época, atuava como coreógrafo da Comissão de Frente. Chamávamos os grupos de Hip Hop Kids (8 a 12 anos) e Hip Hop Teens (13 a 17 anos). Logo em seguida estendi o trabalho a pessoas com deficiências (cadeirantes e andantes), um grupo de dança chamado Perfeito, que desenvolvi em parceria com a Fórmula Academia, localizada no Shopping Eldorado em São Paulo, onde eu atuava como Profissional de Educação Física. E em 2003 lancei o trabalho de street dance para idosos, o Masterfunk, em parceria com o Sesc Pompéia. O grupo Masterfunk reunia 25 pessoas 60+. Esta incubadora de dança (Incubadança) perdurou até 2020 com outros vários projetos. Por vezes levamos estes grupos todos para apresentações em festivais de dança, colégios, empresas e muitos programas de televisão. E hoje me orgulho em saber que atualmente existem cerca de 40 profissionais atuando no mercado da dança que foram formados ou fortemente impactados pelo Programa Incubadança.
FELLIPE – Existe algum projeto que você tenha vontade de colocar em prática?
MARK – Sim, mas neste momento não posso contar, pois está em fase de desenvolvimento. Logo divulgaremos.
FELLIPE – “Se está na Mídia, é Oficial”, o que você oficializa aqui?
MARK – Oficializo aqui ser verdade que é possível promover uma curadoria de dança horizontal capaz de dialogar com tudo, com todas e com todos. Fizemos isto.
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Fellipe Cartier é jornalista, ator e diretor.



