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Legado inconfundível: conheça os games inspirados em David Lynch

Por Gustavo Oreb | Mídia Oficial | Fotos: Reprodução – Remedy Entertainment / Nintendo / Konami / Square Enix

Disruptivo e inovador na forma de contar histórias, diretor não só deixou marcas eternas na televisão e no cinema como também influenciou grandes mentes criativas por trás de outros tipos de arte, incluindo os videogames

 “Cinema é uma linguagem. Uma que te permite dizer coisas grandes e abstratas, e eu amo isso. No cinema, você pode expressar sentimentos e pensamentos que não seriam possíveis de transmitir de outra forma. É uma mídia mágica.” Essa é apenas uma das muitas posições de David Lynch que demonstram o quão grande era sua paixão pela arte que fazia. Seja nas telonas ou nas séries de televisão, o brilhantismo de sua mente criativa sempre se destacou, conquistando milhões de fãs por todo o mundo.

Agora, experimente trocar a palavra “cinema” por “videogame” na fala do diretor. Para alguns, pode parecer uma heresia traçar essa comparação entre os dois tipos de mídia, ainda mais agora que, no último dia 16 de janeiro, Lynch faleceu aos 78 anos, deixando de luto todas as pessoas apaixonadas por sua alma e por suas criações –  tão intimamente conectadas. Mas, como tudo que fez em vida, a ligação que ele tinha com os jogos eletrônicos era, no mínimo, surpreendente.

Mesmo que o envolvimento do cineasta com os videogames não tenha sido tão direto, diversos clássicos de sucesso dessa indústria simplesmente não existiriam sem sua influência. Levando isso em conta, numa humilde tentativa de homenageá-lo, separei alguns jogos que foram inspirados – em maior ou menor escala – pela obra de um dos maiores diretores de cinema e TV de todos os tempos.

Alan Wake 1 e 2

Começando pelo exemplo mais evidente entre tantos, Alan Wake é um jogo obrigatório para qualquer fã de Lynch. Em toda a franquia, as semelhanças com a obra do diretor estadunidense são escancaradas logo nos primeiros instantes de jogo. Isso vale tanto para a sua estreia, de 2010, quanto para a sequência direta Alan Wake 2, apresentada em 2023 – isso sem contar o spin-off Alan Wake’s American Nightmare (2012).

Inspirados principalmente pela transcendental série Twin Peaks (1990-1991-2017), os jogos do escritor que transforma ficção em realidade são recheados de referências ao universo literário de terror – sobretudo a Stephen King – e, junto disso, carregam uma narrativa cerebral, meticulosa e misteriosa. Na maioria das vezes, Alan Wake deixa mais perguntas do que respostas flutuando na mente do jogador, ao melhor estilo Lynch de contar histórias.

Os acontecimentos do game giram em torno da (aparentemente) pacata cidade de Bright Falls, localizada na região Noroeste dos Estados Unidos. Assim como em Twin Peaks, tudo parece rotineiro e calmo à primeira vista, mas, progressivamente, revela-se um microcosmo de personagens com personalidades fortes e atitudes suspeitas, imprimindo uma sensação de desconforto constante no jogador e nos protagonistas da trama. Além disso, a estrutura episódica da história e as cenas com alto teor de metalinguagem e surrealismo – que misturam filmagens com atores em live-action no meio do jogo – contribuem ainda mais para a construção de uma atmosfera inquietante e sobrenatural em Alan Wake.

Não é segredo que o diretor criativo da franquia e figura mais emblemática da desenvolvedora finlandesa Remedy Entertainment, Sam Lake, é apaixonado pelos trabalhos de Lynch. Nas palavras do próprio, “não existiria Alan Wake sem ele”. Mesmo que eles nunca tenham se conhecido, Lake foi quem mais conseguiu transportar a essência do cineasta para os videogames, combinando filme, música, literatura e jogabilidade de forma única, tirando máximo proveito do que a mídia tem a oferecer e criando uma verdadeira viagem interativa pelo inconsciente coletivo. 

Ora, nem é preciso ir tão longe assim nas comparações. Em Alan Wake 2, a premissa da aventura é uma investigação criminal de dois policiais do FBI que gostam muito – um pouco além da conta – de café (à lá Dale Cooper), e o codinome de desenvolvimento do game era “Big Fish”, em alusão às técnicas de meditação criativa praticadas por Lynch, que se encaixam perfeitamente com os dilemas mentais enfrentados por Alan no game.

“As inspirações para a construção do mundo de Alan Wake sempre vieram de Twin Peaks. Em ambos os universos, há uma mistura de elementos, um forte senso de localização de uma cidade pequena, lotada de personalidades fortes e de um humor excêntrico que, rapidamente, se transforma num terror digno de pesadelos”, descreveu Lake, em entrevista ao BAFTA. “A história foi criada como uma jornada em busca daquele tipo de presença invisível que sentimos no dia a dia, da qual suspeitamos, mas não enxergamos, até que uma porta se abre para o desconhecido. Explorá-la pode ser maravilhoso, e pode ser aterrorizante”, acrescentou o diretor finlandês.

Zelda: Link’s Awakening e Majora’s Mask

Esses aqui podem até parecer invenção ou forçação de barra, mas muito pelo contrário. Não é exagero dizer que David Lynch desempenhou um papel essencial na criação de dois dos mais importantes capítulos de The Legend of Zelda, uma das maiores e mais aclamadas séries de jogos da Nintendo. Para ser justo, não foi apenas com a ajuda de Lynch, mas também do co-criador de Twin Peaks, Mark Frost, que essa história foi possível.

Por mais que a gameplay de Zelda: Link ‘s Awakening (1993) seja bem parecida com seu antecessor direto, Zelda: a Link to the Past (1991-1992), a experiência é completamente outra em termos de narrativa e ambientação. Dessa vez, a  jornada de Link não se passa no reino de Hyrule – como acontece habitualmente na série – e nenhum dos outros personagens conhecidos da saga reaparecem durante o game.

 Ao invés disso, o jogador se depara com um elenco de personagens originais e bastante excêntricos. Só para se ter uma ideia, Link pode cruzar seu caminho com um vendedor inicialmente amigável, mas que, se for roubado de algum dos itens de sua loja, tenta assassinar o protagonista furiosamente; ou um senhor de idade avançada que tem vergonha de conversar pessoalmente, mas faz contato o tempo todo por telefone e, à distância, fala sem parar; e até uma família que quebra a quarta-parede e se comunica diretamente com o jogador do outro lado da tela. Isso sem citar outros personagens envolvidos em missões secundárias, cujos diálogos são extremamente ricos em detalhes e importantes para a progressão da história principal.

 Somente em 2010, porém, quase 20 anos depois do lançamento do game, é que a conexão improvável de David Lynch com um dos Zeldas mais únicos que a Nintendo já criou começou a ser descoberta. Naquele ano, o diretor de Link ‘s Awakening, Takashi Tezuka, revelou a inspiração por trás dos memoráveis e estranhos personagens do jogo. “Na época, Twin Peaks era muito popular. Então, eu queria fazer algo parecido, pequeno e de fácil compreensão, que ao mesmo tempo tivesse profundidade e características distintas nos personagens”, explicou Tezuka.

 Até pouco tempo atrás, esse era o fim da história. No entanto, em 2023, Mark Frost apareceu do nada em seu perfil no X (antigo Twitter), perguntando aos seus seguidores: “Alguém chegou a jogar isso?”, se referindo a uma imagem de Zelda Link ‘s Awakening. Em seguida, complementou com “me encontrei com eles na época e dei algumas ideias, mas nunca experimentei por mim mesmo”. Antes disso, Twin Peaks parecia ser apenas mais uma influência indireta em Zelda. Com a confirmação do co-criador, entretanto, o elo tomou proporções muito maiores.

 No ano seguinte, Frost contou mais detalhes numa entrevista ao site The Verge. “Não quero exagerar, foi somente uma reunião, mas foi divertido. Eles me disseram que uma das coisas que mais amavam em Twin Peaks eram as associações paralelas de acontecimentos que levavam a história para frente. Contaram que queriam criar uma narrativa como essa para expandir o universo de Zelda”, disse ele.

 “Creio que aconselhei a eles, ‘não tenham receio de usar simbolismos Junguianos (Carl Jung) ou de sonhos. As coisas podem se conectar tematicamente, sem necessidade de conexões concretas.’ Foram dicas como estas que passei para os desenvolvedores considerarem enquanto faziam o jogo”, concluiu Frost. 

 Diante do resultado final, fica claro que os japoneses fizeram bom uso das ideias discutidas na ocasião. Tanto é que, anos mais tarde, Zelda: Majora ‘s Mask (2000) seguiria boa parte da estrutura narrativa e de construção de mundo de Link’ s Awakening, mesmo com mecânicas de jogo bastante diferentes. Fato é que, não resta mais dúvida, Twin Peaks teve impacto direto em The Legend of Zelda. É possível até especular que, se não fosse por Lynch e Frost, a franquia provavelmente não teria encontrado tão cedo a essência imaginativa e inovadora que a transformou  numa das melhores da indústria de videogames até hoje.

Lynch-sensei

Como é possível imaginar, a influência de Lynch nos criadores de games japoneses não parou apenas na Nintendo. Twin Peaks era extremamente popular no país durante os anos 1990 e o caráter experimental do seriado brilhou nos olhos de muitos desenvolvedores que ainda estavam iniciando suas carreiras naquela época. Um deles era nada mais nada menos que Hideo Kojima.

 Reconhecido como um visionário entre os diretores de videogames, Kojima se consagrou ao longo dos anos com a saga Metal Gear Solid. Logo no seu primeiro lançamento, de 1998, o game já abordava temas incomuns para a mídia na época, como comércio internacional de armas, corrida nuclear, pesquisa científica, geopolítica global pós-URSS e o legado de vida pessoal do protagonista Solid Snake, um espião profissional envolvido diretamente nos principais acontecimentos da guerra.

O clássico de PlayStation 1 é facilmente um dos jogos mais influentes de todos os tempos, afinal de contas, mudou drasticamente a forma de contar histórias nos games. A visão de Kojima permitiu narrativas mais sóbrias, com dublagem e ângulos de câmera dignos de cinema, que se tornaram cada vez mais um padrão nos anos seguintes. Mundialmente celebrado, inclusive em Hollywood, o criador declarou em suas redes sociais no ano de 2018: “Obrigado Lynch-sensei, você me deu coragem”.

 Além de Kojima, os exemplos espalhados pelo Japão são inúmeros. Outro a trilhar os caminhos lynchianos pelos jogos eletrônicos foi Hidetaka Suehiro, mais conhecido como “Swery65”, criador de Deadly Premonition (2010). Inspirado por Zelda e Twin Peaks, o game tem como foco uma investigação policial na cidade de Greenvale, um mundo semiaberto onde os personagens seguem suas próprias rotinas num ciclo de 24h. O cenário em questão é praticamente uma reimaginação da série de Lynch, e o roteiro contém diversas semelhanças – às vezes bem óbvias. De qualquer maneira, é uma experiência muito única e que vale a pena experimentar, mesmo atualmente.

 Voltando à era PS1, Final Fantasy VII (1997) é outro clássico repleto de conteúdo baseado nas obras de Lynch.  Considerado um marco entre os RPGs japoneses, sobretudo por causa da maestria com que conduziu a transição dos jogos 2D para o 3D, o jogo teve a direção de mais um fã de Lynch, Yoshinori Kitase. Segundo ele, Twin Peaks é seu programa de TV favorito de todos os tempos e foi sua grande inspiração para o roteiro, que trata muito sobre a identidade e o amadurecimento do grupo de protagonistas liderados por Cloud Strife.

 A trilha-sonora de Final Fantasy VII também possui algumas semelhanças com as músicas da série. Para quem nunca ouviu, recomendo fortemente que escute nas playlists espalhadas pelo YouTube. Aliás, afirmo sem medo de errar que é uma das trilhas mais inspiradas já compostas para um videogame. Se o tom etéreo e melancólico das músicas de Twin Peaks te encantaram, esse jogo é tiro e queda.

Apesar de ter flertado com o gênero de terror algumas vezes em sua carreira, como no filme Eraserhead (1977), Lynch nunca mergulhou totalmente nessa vertente. O que de forma alguma significa que a esqueceu. Uma das marcas registradas do diretor, por sinal, era a mistura de elementos mais pé no chão, simples e sóbrios, com a comédia, o inesperado e, acima de tudo, o sobrenatural. Esse recurso fazia com que os mundos criados por ele se tornassem mais críveis, e seus personagens mais psicologicamente complexos.

É nesse ponto que entra Silent Hill, a franquia que praticamente inventou o gênero de terror psicológico nos videogames. A estreia da saga, em 1999, já havia mudado o paradigma do terror nos jogos, mostrando que o elemento de interação – inerente à mídia – era capaz de proporcionar experiências verdadeiramente perturbadoras. Entretanto, ao falar de Silent Hill 2 (2001) é que o diretor de arte Masahiro Ito confirmou a inspiração no filme Estrada Perdida (1997), de David Lynch, no desenvolvimento das ideias narrativas dos primeiros jogos da saga. Por si só, Silent Hill viria a influenciar gerações de ótimos games de terror com forte teor psicológico. E, mais uma vez, sem Lynch, essa história não existiria.

Alguns outros jogos com menos detalhes divulgados sobre a influência de Lynch por parte dos desenvolvedores, mas que valem ser mencionados, são: Max Payne (2001) e Control (2019), também do diretor Sam Lake; Half-Life (1998); Disco Elysium (2019); Life is Strange (2015); Virginia (2016); Signalis (2022); Kentucky Route Zero (2020); The Norwood Suite (2017); Mizzurna Falls (1998); Pacific Drive (2024); e vários jogos da franquia Persona.

 Bônus – Comercial do PS2

Como se todo esse legado deixado indiretamente no mundo dos videogames não fosse suficiente, Lynch ainda chegou a dirigir uma propaganda para o PlayStation 2 que marcou a geração dos anos 2000. 

Com apenas um minuto de duração, o curta tem a marca do diretor, tornando a assinatura completamente desnecessária para quem conhece o estilo único, surreal e bizarro que somente ele conseguia materializar. Na oportunidade que recebeu para participar da divulgação da mídia que tanto ajudou a elevar, Lynch não decepcionou nem um pouco. Minha tentativa de descrever seria inútil, então, é melhor apenas apreciar:

Veja aqui

 

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