Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Foto: Internet Archive
A infância é a melhor época, porque não temos noção das estratégias de sedução. Nos entregamos apenas. Hoje amplamente difundida, a obra de ARIÈS foi pioneira ao afirmar certas características históricas da infância, situando-a como produto da história moderna. Para ele, a “aparição da infância” se dá a partir do século XVI e XVII na Europa, quando, com o Mercantilismo, altera-se o sentimento e as relações frente à infância, modificado conforme a própria estrutura social. Antes, vista com indiferença, a criança não era percebida com necessidades diferentes dos adultos.
Quando criança, a felicidade utópica parece estar ao lado. Gostamos de coisas que para os ditos adultos passa despercebido, mas somos conduzidos a vontades repetitivas – ora por um brinquedo recém lançado, ora por outro melhor e assim fomos burlados por noções de novidades. Novidades que hoje parecem ser a melhor, logo vem uma estratégia que desdiz tudo aquilo que foi dito no brinquedo anterior. Tipo: Esqueça tudo que disse antes, esse é o melhor a partir de agora!!! Não temos essa noção porque temos uma única responsabilidade na infância – viver pequenas coisas.
Ao crescer sobrevivemos às coisas. Viramos coisas. Queremos coisas e de coisas nos restam. Apesar que, as crianças de hoje parecem adultos convertidos, chatos, impacientes… São alertados a todo momento de informações que não fazem parte da sua realidade, e o pior, compreendem tudo numa rapidez que nem os cometas explicariam. São obrigados a, prematuramente, resolver questões que não condiz com sua obrigação, no caso, ser criança apenas.
Percebo que cada vez mais crianças tomando decisões que, aparentemente, parecem torpes, mas com a responsabilidade de um adulto. As brincadeiras e a presença dos pais ficaram a cargo de virtuosas máquinas que promovem um individualismo. Enquanto antes as brincadeiras de roda, jogos com times reais, pega-pega eram as tops, hoje passaram a ser substituídos por vídeo-games, mp3,4,5, internet… Não faço uma crítica aos últimos como repulsa, mas parto do princípio que tudo que é demasiadamente utilizado substituindo as relações humanas parece algo assustador.
Jovens que voltam–se pra si dificultando as relações com o ‘outro’, seja numa conversa informal ou numa troca de opiniões. Enfim, cada vez mais intimistas, egocêntricos, centralizadores. Na adolescência temos um compromisso em decidir o que ser na vida. Essa responsabilidade traduz a rapidez com que o processo comportamental imposto pela mídia em que tudo deve ser decidido rapidamente, com um desfecho satisfatório e de preferência feliz. Que idéia idiota em que tudo deve ser finalizado na figura de vencedor ou de um futuro promissor!!! Resultado – Namoros curtos, breves, rápidos. As relações cada vez mais superficiais, quando não exageradas. Os papéis familiares invertidos –filhos que tomam lugar do pai, mãe que vira amiga, pai que não é pai, mães solteiras que são pai e amiga.
Veja bem não quero fazer alusão a uma estrutura familiar bem resolvida, pelo contrário acho que isso não adianta, mas acredito no diálogo como forma de entendimento para os fatos vigentes, coerência nas atitudes e nas ações, o bom senso dos adultos e a relevância das crianças atuais. O que me parece é que a infância deixou de existir. A figura do ‘cuidador’ (termo utilizado na psicologia) passou a ser atribuída a TV, computador e aparatos eletrônicos – Ora se uma criança ficar frente a tv por um longo período com certeza produzirá um efeito. Esse efeito na criança promove a rapidez na concretização dos fatos (impaciência), diálogos com cortes de fluxo constante, precocidade.. e por aí vai. A infância realmente é a melhor época, desde que nesse jogo tenha um juiz para amenizar e cuidar.
Fellipe Cartier é jornalista, ator e diretor.
Texto publicado 02/03/2007 – www.fellipecartier.blogspot.com



