Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Foto: Shutterstock
As mídias existentes criam mecanismos de dependências que vão se incorporando aos fatores mais inóspitos: uma contínua luta para inserir-se no mundo vital – digo vital e não virtual. Inóspitos porque em se falando de tecnologia não poderíamos esquecer da virtualização das realizações mundanas que, exageradamente, toma a frente das relações humanas, falo do contato direto, físico… A incessante busca desconhecida de algo que nunca cessa. Fluxos que aparentemente parecem contínuos, mas se analisados friamente cortes intensos sistematizam uma Era tão chamada tecnológica. Uma Era com interesses próprios, seguido de uma estrutura prazerosa deixando a cargo do veículo o total controle. Baudrillard em seu livro “Tela Total – Mito-ironias da era do virtual e da imagem” afirma que a televisão passa a girar em torno de si mesma, na própria órbita, e a detalhar à vontade as suas conclusões.
“Não é mais capaz de encontrar sentido no exterior, ultrapassar-se enquanto meio para encontrar o seu destino: produzir o mundo como informação e dar sentido a essa informação. Por ter usado e abusado do fato através das imagens, até se tornar suspeita de produzi-lo por inteiro, está virtualmente desconectada do mundo e involui no seu próprio universo como um significante vazio de sentido, buscando desesperadamente uma ética, na falta de credibilidade e um estatuto moral, na falta de imaginação (uma vez mais, vale o mesmo para a classe política)” (p.157-158)¹
Efeito que não te mostra o formato ou a origem da informação, por causa de um interesse que não é exposto ao telespectador. Tudo passa a ser potencializado eliminando a crítica e esmagando o imaginário alheio com uma eficiência subliminar. Dependência seria uma maneira simplista de resumir este, mas traduzo através da palavra subserviência. A utilização dos veículos tecnológicos como ferramenta de fugas, seguida ao extremo. Uma anulação da comunicação extra-pessoal caindo no intimismo. Resultado – A vontade de ser, ‘absorver’e compadecer aquilo que a tv me mostra. Neuroses. Falando nisso, Freud entendia como o resultado de um conflito entre o Ego e o Id, ou seja, entre aquilo que o indivíduo é (ou foi) de fato, com aquilo que ele desejaria prazerosamente ser (ou ter sido), ao passo que a psicose seria o desfecho análogo de um distúrbio entre o Ego e o Mundo. O esforço em se harmonizar o conflito resulta em absorção de “neuroses”.
“Se é verdade que a causação das enfermidades histéricas se encontra nas intimidades da vida psicossexual dos pacientes, e que os sintomas histéricos são a expressão de seus mais secretos desejos recalcados, a elucidação completa de um caso de histeria estará fadada a revelar essas intimidades e denunciar esses segredos.” (FREUD, Sigmund. Fragmento da Análise de um Caso de Histeria: (O Caso Dora) p. 5-6.
Sentar-se frente a televisão hoje mais parece uma forma de anestesia dos problemas vigente. Essa mídia utiliza do entretenimento como uma proposta de cura desses problemas reproduzindo episódios que não atinjam o lado reflexivo. Uma vez criada uma atmosfera em que não exige muita racionalização consolida uma ideia, uma visão, uma verdade que aos poucos seduz o telespectador ao ponto de todos os dias ligar a tv no mesmo canal.
Um entretenimento aparentemente besta, mas com uma fórmula marqueteira de um alto impacto sensorial. Não que esteja atribuindo a tv um papel educativo, pelo contrário, televisão não educa ninguém. Como um veículo de massa consegue educar um grande contingente de pessoas sem ao menos conhecer a realidade de cada um? Lembrando que a presença do professor é um fator determinante na vida de um aluno pelo fato do mesmo conhecer a realidade no qual o aluno se insere. A televisão nada mais é que uma mídia capaz de informar de acordo com interesses públicos ( uma visão esperançosa demais ). Veja bem: quando atribuo a Televisão falo como um todo – técnicos, profissionais e adventos. Agora, falar do veículo, já é outra abordagem. Aqui, nada mais é que uma breve análise do que estão fazendo com o veículo televisão. Existe um livro chamado “A Cura de Schopenhauer”, de Irvin D. Yalom, portanto…
Fellipe Cartier é jornalista, ator e diretor.
Texto publicado 17/02/2007 – www.fellipecartier.blogspot.com



