Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Foto: Internet Archive
O filme ” Alguém para Dividir os Sonhos” (Título Original:The Saint of Fort Washington) de Tim Hunter (EUA 1993) corrobora com uma série de aspectos que envolvem a importância das relações humanas, e sendo assim, como essas (re)definem um novo olhar perante as futilidades da vida. Mattew e Jerry vividos, respectivamente, pelos atores Matt Dillon e Danny Glover se conhecem no perigoso abrigo de indigentes chamado “Fort Washington”. Essa amizade transcende as portas do abrigo para um novo projeto de vida: Ambos ganharem a vida limpando pára-brisas nas ruas de NY. Com humor, vão juntando dinheiro com o objetivo de alugar uma casa.
De um lado, Mattew, um jovem de boa índole, ingênuo, que é liberado de um hospital psiquiátrico sendo obrigado a noite no abrigo de Fort Washington. Do outro, um senhor experiente, veterano do Vietnã que perdeu emprego e família. Sim. Uma amizade!Um roteiro simples mas de um tocante murro nos alicerces da civilização capitalista. Aspectos totalmente irrelevantes que a sociedade privilegia são colocados de escanteio: Reconhecimento e riquezas materiais. Interessante perceber a grandeza dos atos em pequenos gestos aleatórios.
O filme apresenta a condição do humano em seu grau mais deprimente e sem nenhuma possibilidade de revelia (visto por quem assiste), porém, com a unidade de quem presenteia a vida em sonhos (visto pelos personagens). Na verdade, torce-se pela concretização do sonho em comum, mas ao final percebe-se que o sonho foi apenas um motivo para algo maior – o sentimento bom e puro. Sabe aquele sentimento que não sabemos de onde vem? Pois é, ele simplesmente existe.
A ironia do filme está nessas duas figuras, vistas pela sociedade como seres errantes e sem rumo, mas que preservam aspectos genuínos. Essas figuras que, aos olhos do sistema capitalista, tornam-se invisíveis. Elas provocam nesse mesmo sistema o repúdio, a compaixão e a pena. Que são vistas como uma ameaça aos “homens de bens”. Essas que exalam o mau cheiro nos narizes dos “bem de cheiro”, mesmo sabendo que o corpo humano, fede ( do verbo feder) em vida. Pois bem, essas mesmas pessoas se tornam humanas em meio ao lixo comandado pelos “grandes”.
Mattew e Jerry querem um teto para viverem suas vidas. Em meio a isso surge outros sentimentos humanos universais como o medo da solidão, a fidelidade fraterna, a conquista da dignidade… Tudo isso frente a um sistema que contraria tais concretizações. As interpretações dos atores parecem surgir do improviso, do acaso… As situações surgem numa crescente e que de repente o toma, o arrebata. Isso é percebido e apresentado, inclusive, pelos atores. Não entrarei no mérito das técnicas de interpretação porque o conjunto da obra funciona. O que é plausível é a forma plenamente visceral com que os sentimentos humanos são expostos.
Dois seres, considerados marginalizados, nos apresentam a minimização de futilidades capitalistas, refletidos ironicamente na indigência e na mendicância. As privações relacionadas com o corpo físico não interessam neste, pelo contrário, a bondade (em extinção no mundo) e a compaixão se sobrepõem às limitações aparentes.
Fellipe Cartier é jornalista, ator e diretor.
Texto publicado 03/09/2010 – www.fellipecartier.blogspot.com



