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“Entendi com o tempo, que tudo posso, basta me esforçar e querer”. Kátia Monique, historiadora

Por Kátia Monique | Mídia Oficial | Fotos: Arquivo pessoal 

Meu nome é Kátia Monique, sou mulher preta, nascida e criada em uma cidade do interior do Rio de Janeiro chamada Barra Do Piraí. Toda minha infância, adolescência e metade da juventude eu vivi lá. Na fase do meu nascimento até o início da minha infância tudo parecia ser lindo e maravilhoso, até ir para a escola e ser alfabetizada. Minha primeira professora – tia Rosângela – me ensinou a ler e a escrever, mas nesse período eu já tinha dificuldade em algumas coisas como por exemplo: não era tão rápida para escrever e também para ler sentia muita dificuldade. Rosângela pegou uma amizade muito forte com a minha família e propôs ser também minha explicadora. 

Pai e mãe de Katia.

A partir daí eu comecei a ler e escrever melhor, mas existia um porém: tudo me fazia perder a atenção, por causa disso era conhecida como malandra e desinteressada nos estudos. De tanto ouvir, comecei a achar que não era muito inteligente e fiquei realmente desestimulada em ir para escola. Eu era uma criança e sabia que havia algo errado porque os professores só viviam reclamando com a minha mãe. Acompanhar a turma era muito difícil, principalmente na hora de copiar a lição de casa. Por esse motivo fiquei bastante de castigo por ser vista como “a malandra”, que não queria saber de estudar. 

Minha família não me dava muita atenção e minha mãe começou a me levar em médicos de cabeça, para saber o que acontecia comigo. Levaram-me. O médico pediu vários exames para entender melhor o meu cérebro. Comecei a tomar remédios fortes para controlar os nervos e a memória.  Raciocinar era bem difícil, pois o remédio me dava sono. Tomava dois remédios – um pela manhã e outro à noite. 

Minha mãe por sua vez, procurou por profissionais para saber o que estava acontecendo, pois ela já tinha procurado quando era menor por ter um comportamento meio nervoso, como por exemplo: morder outras crianças e ser agitada. Nesse período o médico solicitou vários exames para saber qual era o problema. Quando os exames chegaram, apenas minha mãe soube do que se tratava – fui diagnosticada com disritmia e no teste de QI deu grau 1. A psicóloga falou para ela que não iria sair da quarta série; que era para me tirar da escola e me colocar para trabalhar em casa de família; para isso era para me ensinar a lavar e passar.  

Continuei tomando mais remédios, que consequentemente, me davam uma sonolência absurda. Não conseguia me concentrar… aí mais reclamações, mais falta de atenção e noites mal dormidas. E eu sem saber de absolutamente nada. Cheguei a pedir a minha mãe para ela deixar eu tomar o remédio só a noite a resposta foi bem ríspida: 

– Não posso, temos que voltar ao médico e isso só daqui a um tempo depois que você for a psicóloga.

Perguntei por que não tínhamos ido ainda na psicóloga: 

– Primeiro tome os remédios e depois voltaremos ao médico para fazer outros exames e ir para psicóloga.

Eu rezei ansiosamente para voltar ao médico e ir à psicóloga e finalmente chegou o grande dia –  fui ao médico e ele liberou o remédio pela manhã e passou o encaminhamento à psicóloga. O mesmo indicou a profissional que era professora do colégio onde eu estudava. Foi aí que descobri que ela atendia no mesmo consultório do médico. Os dias foram passando. Ela me atendia duas vezes na semana e dentre esses atendimentos ela disse a minha mãe que havia aplicado um teste de QI e não gostou do resultado. Não entendi muito bem que era isso mas sabia que deveria ser importante. Minha mãe perguntou se ela ia fazer de novo e ela respondeu que sim. Também se minha mãe costurava, motivo que fez com que frequentasse mais minha casa. 

Em uma dessas idas para ajustar suas roupas disse que eu iria refazer o teste e que minha mãe levasse no consultório. Fui e fiquei toda feliz porque minha mãe me incentivou bastante para refazer o teste. Estava realmente confiante! Fiz o tal teste. Dias depois, ela marcou para ir lá em casa para levar algumas roupas e perguntei sobre o resultado do teste, ela foi bem seca, diferente como de costume. Fiquei sem resposta. Chamou minha mãe e minha avó para uma conversa, fiquei sem entender o porquê  e disse que eu já estava liberada das consultas. Questionei minha mãe sobre essa liberação, sem resposta, claro! 

Katia e sua mãe na colação de grau. Formatura em História.

 

Mais tarde, descobri o motivo: fui considerada uma paciente sem QI, por isso já podia parar de estudar. Entendi o porquê da psicóloga me dizer para abandonar os estudos e trabalhar mais cedo em casa de família.  Quando minha mãe confirmou aquela resposta eu não sabia o que pensar. Analisando a situação, fui uma criança que não tinha a menor noção de nada, mas isso influenciou a minha vida. Sempre fiquei com medo de tudo e quando cheguei na adolescência, ficava me achando inferior a todos, com medo dos que percebessem que era diferente, ou seja, burra, incompetente e feia. Isso foi quase a minha vida toda. É muito ruim ter esse sentimento que você não pode ser como os outros. Entendi com o tempo, que tudo posso, basta me esforçar e querer. Hoje em dia eu sou formada em História. Minha trajetória é bem puxada então, realmente, tenho dificuldade de aprendizado, mas isso não significa que eu sou burra. Sou inteligente, sim!

 

Diário Oficial é uma coluna aberta à população onde nosso leitor relata experiências, fatos e conjecturas do seu cotidiano.

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