Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Fotos: Arquivo pessoal
Sua missão é proporcionar acessibilidade a equipamentos culturais, dando continuidade a outros projetos já realizados por ela nas periferias de São Paulo. Pretende também promover um espaço cada vez mais inclusivo e enriquecedor para todos.
Dandara é daquelas que toma conta do espaço com sua luz e sabedoria. Figura de sorriso largo, exuberante, linda, cativante… Testemunhei isso em 2018 na Funarte de São Paulo, palco do nosso primeiro encontro. Daquele ano em diante procurei trazê-la para onde estava. Óbvio com alguns hiatos de tempos, porém com reencontros que renderam entrevistas, trocas, papos e muitas risadas. Produtora cultural com formação em captação de recursos em espetáculos das mais variadas frentes, atuou na coordenação da Casa de Cultura de São Mateus por mais de dois anos e fez história com sua forma de administrar e gerir. Sua vasta experiência na área cultural em prol de políticas públicas para as minorias deu certo: ela chega a um dos maiores e importantes centros culturais da América Latina – o CCSP. Detalhe: como pioneira e fazendo história. A primeira preta, quilombola, pertencente à população LGBTQIAPN+ a ocupar a diretoria da instituição. Seus dois filhos devem ter muito orgulho dessa mãe, afinal ela não deixa apenas um legado para eles, mas para as próximas gerações e para todos nós. Caro leitor, aprecie o outro lado de Ildaci Francisca de Almeida, nossa Dandara!
FELLIPE – Na sua infância, suas potencialidades artísticas foram apoiadas por seus familiares? Como foi isso?
DANDARA – Falar da minha infância é também falar de onde eu vim. Em Barra da Alegria/MG, cidade onde eu nasci, meu contato inicial com a cultura, até os 13 anos, foi mediada por programas de rádio e televisão, como show de calouros, novelas e o emblemático Show do Chacrinha nos anos 80.
FELLIPE – Tendo um olhar de distanciamento, a Dandara adolescente reflete na Dandara de hoje? O que mudou?

DANDARA – Cheguei em São Paulo nos anos 90, em específico, em 1993. A relação com o teatro e com a música em uma cidade como São Paulo é absolutamente diferente. Contei muito com uma rede de apoio, como toda adolescente do interior vim para São Paulo e fui acolhida por uma família que possuía uma formação cultural que me serviu muito como referência.
FELLIPE – Seus projetos refletem sua ânsia? O que te impulsiona? Quais os que mais trazem lembranças?
DANDARA – Fui criada em um quilombo em Barra da Alegria. Fui criada com Congadas, cantorias de reis e festas tradicionais que funcionavam como uma política pública orgânica mantendo as tradições locais, essas são algumas das minhas referências. Meu pai era um homem que gostava muito de contação de histórias, nos formou muito com isso a partir da nossa ancestralidade e cultura, mesmo sendo um homem não alfabetizado, utilizou da oralidade para nos formar culturalmente. Quando eu chego em São Paulo, me encontrei com jornalistas, trabalhadores da cultura e música que me proporcionaram acesso à informação e condições melhores de estudo. Tenho essas referências como impulsionamento para a minha trajetória.
FELLIPE – Quem são seus heróis nesse roteiro da sua vida?
DANDARA – A minha família é uma grande referência de heróis e heroínas na minha vida, tendo em vista o que já comentei. Sou descendente direta de pessoas escravizadas, sou do povo bantu, conheci minha avó – uma mulher da pele preta – mãe de 7 filhos e que abriu caminhos para que nossa família pudesse existir. Maria de Jesus, inclusive minha mãe carrega o mesmo nome. Também é importante citar Dandara, essa liderança que eu escolhi carregar o nome, essa guerreira que me inspira todos os dias para eu continuar travando minhas batalhas e construindo os meus sonhos, acreditando na minha ancestralidade e respeitando a minha história.
FELLIPE – Dentre tantos projetos pessoais e profissionais existe algum que ainda falta? Que ainda perturba você, por não ter executado?
DANDARA – Gostaria de implementar um projeto entre a saúde e a cultura. A cultura tem por vocação proporcionar leveza e alegria. Para promover o acesso à cultura para parte das populações em vulnerabilidade social, considero um sonho proporcionar e ampliar acessibilidade a equipamentos culturais, dando continuidade a outros projetos que já realizei dentro da periferia com instituições como o CAPS.
FELLIPE – Como surgiu o convite p
ara ser diretora do Centro Cultural São Paulo – CCSP?
DANDARA – Eu trabalho promovendo cultura em São Paulo há anos. Quando surgiu o convite, eu já integrava a equipe da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, coordenando um equipamento cultural na Zona Leste, em específico, em São Mateus. Acredito que por um trabalho bem feito entre a política pública e a cultura – que é também uma política pública – surgiu o convite para assumir o cargo de diretora geral por parte do prefeito Ricardo Nunes.
FELLIPE – Percebe-se que o CCSP é um es
paço onde dialoga com múltiplas linguagens. Como é esse processo de democratização?
DANDARA – É um desafio incrível poder atuar nesse espaço de grande relevância da cidade de São Paulo e da América Latina, escutando e atendendo diversos públicos que são munícipes e turistas do mundo todo. Nós atendemos públicos voltados à música, teatro, dança, artes visuais, cinema e proporcionamos ações educativas e culturais, como oficinas, palestras, workshops e debates.

FELLIPE – Você está à frente de um dos mais importantes centros culturais do país. Sua luta e sua trajetória são responsáveis por isso, com certeza! Como você avalia sua representatividade para a comunidade preta? E como você avalia a representatividade dos pretos nos veículos de comunicação?
DANDARA – Ser a primeira mulher preta no cargo de direção dessa instituição que existe há mais 40 anos, é de grande importância e responsabilidade para a minha trajetória, da minha comunidade e para a cultura que possamos avançar e quebrar uma hegemonia. A tarefa é longa e nosso compromisso é dar visibilidade e continuidade para que não sejamos os únicos.
FELLIPE – Em um país onde Preto é julgado (e massacrado) pelos erros, pela cor, pela invisibilidade… existe “pena” para o Opositor?
DANDARA – É uma luta constante e não podemos permitir que haja espaço para racismo no mundo em que vivemos. Espaços como o da cultura, que tende a preservar a memória e ancestralidade de um povo, não pode haver espaço para preconceitos, mas sim um compromisso com a mudança.
FELLIPE – “Se está na Mídia, é Oficial”, o que você oficializa aqui?
DANDARA- Você não precisa aceitar, mas tem que respeitar. Respeite quem pode chegar onde a gente chegou.
Mais informações:
- @dandara_almeida
- @ccspoficial
Fellipe Cartier é jornalista, ator e diretor



