Por Gustavo Oreb | Mídia Oficial | Fotos: Reprodução/Konami
Trabalho da Bloober Team consegue modernizar e preservar (quase) tudo que tornava a jornada de James Sunderland única e profundamente assustadora no PS2
Um dos tempos verbais mais esquecidos e subutilizados da língua portuguesa é o “pretérito mais-que-perfeito”. Isso porque ele existe apenas para se referir ao passado que ocorreu antes do passado, uma situação extremamente rara numa conversa ou num texto comum do dia a dia. Mas, Silent Hill 2 não é um jogo qualquer, e seu contexto na indústria de videogames merece, sem dúvida, um olhar especial.
Quando se trata de Silent Hill, especialmente de sua segunda versão – a mais aclamada pelos fãs e pela crítica especializada -, lançada em 2001 para o PlayStation 2, acompanha-se muitas, inúmeras, incontroláveis exceções e exageros. Há quem diga que é o melhor jogo de Horror e Sobrevivência de todos os tempos, muito por causa de seus personagens muito bem construídos e de uma narrativa profundamente psicológica, certamente entre as mais marcantes do gênero. E, francamente, é muito difícil discordar dessas afirmações, ainda mais levando em conta que a franquia é tida como a fundadora do terror psicológico nos games.
Além disso, a atmosfera presente na versão de PS2 é simplesmente sem igual: angustiante e melancólica, mas, igualmente, instigante. Até mesmo os pontos “negativos” do jogo – como as atuações bastante caricatas em algumas cenas da história – caíram como uma luva na época, causando nos jogadores uma sensação simultânea de estranheza e imprevisibilidade. Por esses e muitos outros fatores, Silent Hill 2, exatamente como foi lançado há mais de duas décadas, ainda é um clássico indispensável para os fãs de terror e, ao mesmo tempo, quase impossível de ser replicado.
Ou seja, tentar recriar todos esses sentimentos – alguns gerados por acidente -, mais de 20 anos depois, sem se perder em meio a tantas nuances, seria uma missão extremamente complicada. Para superar ou mesmo igualar a singularidade do jogo original em meio a tantos outros excelentes games de terror que vieram depois, um remake teria que ser, no sentido mais metalinguístico possível, mais que perfeito.
Sonho inquieto
Diante de todo esse cenário, a Konami – que passa longe da fase espetacular que vivia há duas décadas – anunciou que a responsabilidade pelo desenvolvimento do remake cairia no colo da Bloober Team, um estúdio polonês talentoso, mas inexperiente. A princípio, a recepção do público foi cética, os trailers divulgados também não ajudavam muito, e os fãs já se preparavam para mais uma decepção com a franquia que, há tantos anos, não via a luz do Sol.
Até que, em outubro de 2024, a hora tão aguardada chegou. Silent Hill 2 saiu para PS5 e PC e, contrariando todas as expectativas, o jogo era primoroso. Depois de jogá-lo mais de uma vez para pegar os finais que queria, posso afirmar com convicção que a visão da Bloober Team sobre o game demonstra extremo capricho com os mínimos detalhes que faziam o clássico ser tão amado. Mesmo assim, o produto final não deixa de promover algumas mudanças para aproximar o público moderno da história que marcou uma geração de fãs.
Carta de amor
Logo no primeiro instante após apertar “start” no menu, conhecemos James Sunderland, um homem branco, de aparência cansada, lavando seu rosto num banheiro imundo de beira de estrada, com uma expressão de quem custa a acreditar que realmente está ali. Em seguida, numa introdução brilhantemente conduzida pela trilha-sonora de Akira Yamaoka – compositor que retorna do clássico de 2001 -, o protagonista conta que recebeu uma carta de sua esposa, Mary, dizendo que esperava por ele no “lugar especial” do casal, em algum canto da sinistra cidade de Silent Hill. O problema é que a companheira de James já estava morta há três anos, devido a uma doença misteriosa.

Após esse momento, o jogador ganha controle sobre o viúvo, que parte indiscriminadamente em direção a cidade, ignorando todo e qualquer sinal de perigo (e são muitos). Passando por uma floresta densa, um cemitério e um rancho antigo, James encontra uma cidade abandonada, decrépita, coberta por uma neblina densa que mal permite ao homem enxergar dois palmos à frente do nariz. E, mais importante, o personagem começa a topar com monstros agressivos e deformados, redesenhados por outro integrante-chave da equipe original de desenvolvimento, Masahiro Ito.
Desse ponto em diante, a jornada pessoal de James começa a se misturar com os elementos do cenário e com as aparições provocadas pela cidade, conhecida, justamente, pelo poder de materializar as mais profundas angústias da mente de quem tem a coragem de adentrá-la. Com isso, conseguimos deduzir, pouco a pouco, que o protagonista pode não estar sendo tão honesto consigo mesmo ou com suas próprias intenções em Silent Hill. Esse conflito mental constante é um dos mistérios mais interessantes do jogo, e um dos principais motivos para a narrativa ser tão magnética do início ao fim.
Conforme a história avança, também nos deparamos com outros personagens que resolveram fazer uma visita a Silent Hill. Na opinião do que vos escreve, inclusive, esse foi o aspecto mais aprimorado do remake em relação ao clássico. Não era missão fácil transportar todo o peso das histórias de Angela, Laura, Eddie e Maria sem perder nada, mas as atuações, adições de cenas extras e diálogos novos com cada um foram encaixados num tom certeiro, tornando o elenco que já era interessantíssimo, melhor ainda.
Os encontros são mais sóbrios e pesados do que antes, porém, sem perder o fator “estranheza” das atuações originais. Nesse âmbito, no entanto, o maior destaque vai para o ator e dublador de James, Luke Roberts, que desempenhou o papel com maestria, superando por muito seus predecessores.
Outro destaque que complementa a narrativa é o nível de realismo nas expressões faciais, modeladas com tecnologia de captura de movimento. Com certeza estão entre as melhores que já vi na indústria, tanto que só consigo me lembrar de outros dois games que executam essa função com tanta qualidade: “Alan Wake 2” e “Hellblade: Senua’s Sacrifice”. Quase sempre, basta olhar nos olhos dos personagens para saber o que estão sentindo, e isso torna a experiência ainda mais imersiva.
Vale ressaltar, também, a qualidade da direção de arte, da iluminação e, sobretudo, da parte sonora do remake, que contribuem ainda mais com a construção do clima de terror e suspense em cada passo. A grande maioria dos sons são extremamente aflitivos. Até mesmo os mais banais, como o ruído de estática do rádio, são capazes de arrepiar a espinha e fazer a palma da mão suar.
Jogabilidade
Em termos de gameplay, o remake não difere muito do padrão clássico estabelecido pelo gênero de horror e sobrevivência. O jogador deve sempre explorar os cenários com atenção, buscando recursos escassos como munição, itens de cura e armas de fogo para superar os inúmeros desafios de combate.
Por sinal, a cadência dos confrontos contra inimigos comuns e chefes está na medida certa, em qualquer uma das dificuldades disponíveis. Os controles foram modernizados e muitas lutas foram modificadas (para melhor), mas a sensação de desespero a cada golpe ou pisoteada de James está mais forte do que nunca. Esse aspecto, somado à movimentação um pouco travada – propositalmente, para lembrar os controles “tanque” do jogo original -, deixa claro que o protagonista é apenas um homem comum, apavorado e despreparado para lidar com o sobrenatural.

Responsável por acompanhar os movimentos do jogador, a câmera também é um dos elementos que mais diferenciam o remake de sua inspiração. A Bloober Team optou por seguir os padrões atuais de jogos em terceira pessoa, com uma visão que segue por trás dos ombros de James o tempo todo. Hoje, esse é o modelo convencional e familiar para os jogadores mais novos, porém, os ângulos por vezes fixados em pontos específicos do cenário no game original conseguiam trazer tensão, desconforto e cinematografia para os ambientes de formas que nem sempre se fazem presentes na versão de 2024.
Em compensação, as áreas exploráveis do game estão mais interconectadas do que nunca. Os cenários são vivos e ricos em detalhes, repletos de elementos macabros que tornam cada espaço a ser explorado memorável e, além disso, os mapas antigos foram quase totalmente preservados, isso quando não foram expandidos, ficando ainda mais labirínticos.
Mas, nem só de combate e exploração vive Silent Hill 2, o game também é cheio de quebra-cabeças que devem ser resolvidos para avançar na história. Nesse ponto, eu diria que a Bloober Team pode ter facilitado um pouco demais. Os enigmas presentes no jogo são, sim, em sua grande maioria, bastante satisfatórios e gratificantes, no entanto, alguns dos obstáculos originais foram substituídos por versões mais simples, provavelmente para evitar que novos jogadores se sentissem perdidos. Muitos dos momentos mais complicados, que envolvem combinações aleatórias de itens, por exemplo, foram lembrados apenas como referências, por meio de “vislumbres do passado”, um dos tipos de colecionáveis do remake.
Todas essas características reforçam que, independentemente do avanço da tecnologia, não existe uma “edição definitiva” de Silent Hill 2. Ambas as versões têm grandes méritos e fazem um uso brilhante dos recursos disponíveis em cada período de produção. A edição de PlayStation 2 tem um valor histórico imaculado, e se destaca por escolhas artísticas que ainda a tornam única, enquanto o remake torna a experiência mais palatável para novas audiências e aprimora praticamente todos os aspectos técnicos da obra, sem deixar nenhum detalhe da história original de fora.
Veredito
Depois de todas essas constatações, dá para perceber que a experiência de jogar o remake de Silent Hill 2 é completamente apaixonante. E não é à toa, o esmero que a equipe da Bloober Team colocou no projeto fez total diferença no resultado final. Até mesmo no “Making Of” divulgado nas redes sociais dos desenvolvedores poloneses, fica evidente que as pessoas envolvidas no projeto eram fanáticas pelo jogo original e trataram a obra da antiga Team Silent com o máximo de respeito, muito acima de uma simples melhoria gráfica que a nova geração proporciona.

O fruto dessa dedicação inquestionável é um dos melhores jogos do ano passado e, arrisco dizer, um que consegue alcançar o que há de mais grandioso no gênero de terror nos videogames, atingindo o mesmo patamar do clássico de PS2 que o inspirou.
Mexer com uma obra tão icônica como Silent Hill 2 tinha tudo para ser mais um tiro no pé da Konami, como tantas vezes já aconteceu na indústria do entretenimento e com a própria desenvolvedora japonesa nos últimos anos. Contrariando toda essa negatividade, o remake é uma verdadeira carta de amor aos fãs, um convite a uma nova geração de gamers que podem conhecer a franquia agora e, mais importante ainda, a esperança de que, nas mãos certas, a saga volte aos seus dias de glória, dos quais nunca devia ter saído.



