Por Carlos Calado | Mídia Oficial | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Mais do que um personagem histórico ou mítico, São Jorge/Ogum representa a luta, a coragem e a fé inabalável diante das adversidades
Em diferentes tempos, culturas e territórios, algumas figuras atravessam a história e deixam de ser apenas personagens para se tornarem presença viva no cotidiano das pessoas. Para mim, São Jorge é uma dessas forças. Sua trajetória ultrapassa os limites do cristianismo e encontra eco em outras tradições religiosas, especialmente nas religiões de matriz africana, onde é sincretizado com Ogum. Não conheci sua história sozinho. Foi pelas palavras, ensinamentos e vivências de Mãe Regina Andrade de Ogum Menino, e também ao lado de Mãe Wanda de Iansã e do Babalaô Wagner, que comecei a compreender a dimensão espiritual, simbólica e ancestral dessa figura. Dia 23 de abril, seu dia, ganhou outro significado para mim. Não é apenas uma data no calendário: é um momento de fé viva, marcado por alvoradas, missas, procissões e celebrações populares, como a tradicional feijoada de São Jorge.

Nascido na Capadócia, região que corresponde à atual Turquia, entre os anos 275 e 280 d.C., São Jorge veio de uma família nobre e cristã. Ainda jovem, enfrentou a perda do pai, um militar, o que levou sua família a se mudar para a Palestina. Com o tempo, seguiu a carreira militar no exército romano, destacando-se por sua disciplina, bravura e lealdade. Sua ascensão foi rápida: tornou-se capitão e, posteriormente, Conde da Capadócia. Mesmo em meio à vida militar, manteve sua fé como base de sua conduta e como fonte de força espiritual. Durante o reinado do imperador Diocleciano, por volta do ano 303 d.C., teve início uma intensa perseguição aos cristãos. Diante desse cenário, São Jorge enfrentou um dilema profundo: manter sua posição no exército ou permanecer fiel à sua crença. Sua escolha foi firme. Em um ato de coragem e resistência, rasgou o édito imperial. Foi então considerado traidor, submetido a torturas e, por fim, executado por decapitação na cidade de Lida. Sua morte, marcada pela violência, não apagou sua história — pelo contrário, a eternizou.
Foi também nesse caminho de aprendizado que passei a enxergar de outra forma a imagem mais conhecida de São Jorge: montado em um cavalo branco, enfrentando e vencendo um dragão. Hoje entendo que não se trata apenas de uma lenda popular, mas de uma metáfora poderosa. O dragão representa as forças que nos oprimem, o medo, a injustiça, os desafios da vida. E o santo, ou melhor, Ogum, representa a coragem de enfrentá-los.
Graças a essa tríade de saberes que cruzou o meu caminho, algo mudou dentro de mim. Passei a compreender que a força de Ogum está diretamente ligada à luta, à justiça e à proteção. Não como algo distante ou abstrato, mas como uma energia presente, que orienta, abre caminhos e sustenta a caminhada de quem acredita.
Sincretismo Religioso: São Jorge e Ogum no Brasil

Com a chegada dos povos africanos escravizados ao Brasil, houve um processo de adaptação e resistência cultural que deu origem ao sincretismo religioso. Nesse contexto, São Jorge foi associado a Ogum, orixá guerreiro das religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda.
Em tempos em que o diálogo entre diferentes crenças ainda é um desafio, exemplos reais mostram que o respeito é não apenas possível, mas necessário. As celebrações realizadas na Igreja de São Jorge, na região central do Rio de Janeiro, em 2025, evidenciaram essa convivência harmoniosa. No mesmo espaço, fiéis do catolicismo e integrantes das religiões de matrizes africanas compartilharam fé, devoção e respeito, cada um à sua maneira, mas unidos por um mesmo sentimento de reverência. Mais do que um encontro religioso, aquele momento simbolizou a força do reconhecimento das diferenças como potência, e não como divisão. Ao celebrar São Jorge e Ogum lado a lado, reafirma-se que a fé pode ser ponte, nunca muro, e que o verdadeiro caminho espiritual é aquele que acolhe, respeita e aprende com o outro.
Ogum é o orixá do ferro, da guerra, da tecnologia e dos caminhos. É aquele que abre estradas, vence demandas e protege seus filhos. Sua força está diretamente ligada à ação, à luta e à conquista, características que dialogam profundamente com a figura de São Jorge. Enquanto na Umbanda é frequentemente associado à cor vermelha, no Candomblé sua representação costuma ser ligada ao azul. Em ambas as tradições, é reverenciado como um protetor poderoso e justo.
A devoção a São Jorge no Brasil ultrapassa os limites religiosos e se manifesta em diversas expressões culturais. Ele é padroeiro, inspiração artística e símbolo de resistência. No futebol, por exemplo, é fortemente associado ao Sport Club Corinthians Paulista, que mantém uma capela dedicada ao santo. Na música, nomes como Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz exaltam o guerreiro em suas canções, reforçando sua presença no cotidiano popular. Além disso, escolas de samba e manifestações culturais em todo o país reverenciam São Jorge/Ogum como símbolo de proteção e força espiritual.
O Dia do Guerreiro: Fé, Festa e Tradição
No dia 23 de abril, celebra-se São Jorge com grande devoção em diversas regiões do Brasil. Nas religiões de matriz africana, Ogum também é homenageado com oferendas específicas, como alimentos preparados com azeite de dendê, velas e bebidas, em rituais que reforçam a conexão espiritual e a gratidão.

Se São Jorge representa a fé que resiste, Ogum simboliza a ação que transforma. Ele é o orixá que abre caminhos, rompe obstáculos e conduz seus seguidores nas batalhas da vida, sejam elas materiais, emocionais ou espirituais. Ogum é ferro, é forja, é terra. É movimento e decisão. É aquele que ensina que não basta acreditar: é preciso agir. Por isso, sua importância vai além da religião. Ele é um arquétipo poderoso da coragem humana, da persistência e da capacidade de enfrentar desafios com dignidade e força.
Assim como nossos ancestrais, que atravessam o tempo por meio dos ensinamentos e caminhos que abriram, Ogum permanece vivo no legado de coragem, luta e proteção que inspira gerações. A trajetória de São Jorge, sincretizada em sua força, nos lembra que ninguém parte sem deixar marcas, e que são essas marcas que nos guiam nas batalhas da vida. Finalizo com gratidão aos ensinamentos de Mãe Regina Andrade de Ogum Menino, Mãe Wanda de Iansã e do Babalaô Wagner, que me ajudaram a compreender que seguir adiante também é honrar quem veio antes.
Carlos Calado, carnavalesco e gestor cultural




2 Comments
Como um profundo conhecedor dos meandros culturais, Carlos Calado nos presenteia com um lastro de detalhes que permeiam, de forma inteligente, o que deixou de ser apenas uma comemoração no Rio de Janeiro. O dia de São Jorge, passou a ser um grande, evento em cada bairro, em cada clube, condomínio…. em cada recanto pode ser notório o canto no encanto da “fé que resiste”, quer seja nas missas ou nos ritos da umbanda ou do candomblé. Carlos Calado, ao retratar sobre o sincretismo entre São Jorge e Ogum, me fez lembrar de outras datas memoráveis como Santa Bárbara e Iansã. Um ponto de suma importância são os ensinamentos que são passados pelos nossos mais velhos que detém o conhecimento de assuntos das nossas ancestralidades. Assim deixo aqui os meus aplausos ao grande carnavalesco e gestor cultural, Carlos Calado, por ter recebido as sementes da informação de seus Griôs, Mãe Regina Andrade de Ogum menino, Mãe Wanda de Iansã e do Babalaô Wagner. Este exímio artista não jogou as sementes em meios a pedras, porém, de forma brilhante as plantou, neste memorável artigo sobre o santo guerreiro, mantendo acesas as memórias de fé, festa e tradição.
Parabéns, Carlos Calado!
Caro amigo escritor, professor e compositor Ademir Gomes, eu sou grato e fico imensamente lisonjeado com suas palavras, agradeço sempre por todas os nossos diálogos e por toda gama de conhecimento que sempre me brinda. E agradeço a direção do Mídia Oficial por me acolher em seu quadro de profissionais. Que possamos divulgar, elucidar e somar para o aprendizado do nosso povo brasileiro cada vez mas e mas!