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Dream Life in Paris

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O Artista – Um produto barato

Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Foto: Internet Archive

Já dizia Schopenhauer que a arte é uma das formas de libertação, pois nela afastamo-nos desse mundo de dor e sofrimento. Pois bem – A arte tem o poder de alterar, assim como a ciência de comprovar. Juntas disseminam questionamentos e fomentam a racionalização. O problema é que essa arte descartável que vemos não altera em nada nosso subconsciente. Pelo contrário, nada melhora. Nada muda. Nada. Nada. Nada…

Teatro alternativo não tem vez, dando lugar às nomenclaturas torpes criadas ‘Eu sou ator de teatro. Eu sou de tv. Eu sou de rua…’ Tudo é previsível, com doses cavalares de um marketing inédito, perfeito, eficaz. Tal marketing privilegia quem aparece mais. Algo já falido, nada de novo. Como se o objeto ‘novo’ fosse causar a esperança de algo supremo. Assim é a vida. Assim essa ‘vida’ reverbera na ‘arte’. Nietzsche em seu livro Humano, Demasiado Humano preconiza a função do verdadeiro artista como sendo um meio do fazer artístico:

É um sinal de cultura superior reter conscientemente certas fases da evolução que os homens mais insignificantes atravessam quase sem refletir e apagam em seguida do quadro de sua alma, e fixá-las com consciência, além de traçar delas uma imagem fiel: esse é o gênero de arte pictórica mais elevado, que só poucos entendem.(…) Os estudos históricos desenvolvem a aptidão para essa pintura, pois continuamente nos convidam a propósito de um trecho de história, da vida de um povo ou de um indivíduo, a imaginar um horizonte de pensamentos perfeitamente determinado, o predomínio destes, o retrocesso daqueles. É na possibilidade de reconstituir rapidamente, em certas ocasiões, tais sistemas de idéias e de sentimentos, assim como se imagina o efeito de um templo a partir de algumas colunas e restos de paredes que por acaso ficaram em pé, que consiste no sentido histórico (…). [pg 194]

Basta vermos as produções seguidas de elencos toscos e sem atrativos, sem propostas, sem talentos, sem qualidade… Espetáculos com roupagens televisivas, quadradas, pífias… Enfim, percebo uma lama que rodeia o mundo artístico. Culpar a televisão? Não. Ela tem estética própria, embarca se quiser. Já o teatro tem uma magia própria, única e inquestionável. Cada um na sua. Culpar os profissionais da arte? Isso talvez – O produto “artista” se tornou tão barato e tão banalizado que tenho vergonha de dizer que sou ator. Qualquer ser humano desprovido de perspectiva acaba indo para o teatro na ânsia de buscar uma identidade ( salvo as exceções). E o pior, indo ‘fazer’ teatro pensando em ‘fazer tv’, ou melhor, aparecer na mesma. Ridículo isso! Revoltante.

Veja bem: Não digo que fazer tv é algo desprezível, o que alfineto é aquele ‘inútil metido a ator’ que vem para o teatro pensando em tv. Aquele idiota que quer garantir sua identidade frente a uma imagem. Um processo de inaceitação da realidade pela ficção de tal. Interessante essa relação entre a criação de um show em imagens, de identidades forjadas. Quando Baudrillard crítica a vigência da televisão no seu livro Tela Total – Mito-ironias da era do virtual e da imagem onde diz que esse quadrado mágico passa a ‘girar em torno de si mesma, na própria órbita, e a detalhar à vontade as suas conclusões’ é extrema relevância, por que não é mais capaz de encontrar sentido no exterior e no seu destino:

(…)Por ter usado e abusado do fato através das imagens, até se tornar suspeita de produzi-lo por inteiro, está virtualmente desconectada do mundo e involui no seu próprio universo como um significante vazio de sentido, buscando desesperadamente uma ética, na falta de credibilidade e um estatuto moral, na falta de imaginação (uma vez mais, vale o mesmo para a classe política)”. [p.157-158]

Assim alguns caem nessa armadilha, sustentada pela banalização de tudo e de todos. Não recrimino quem se atreva a isso, o que recrimino são os intitulados “profissionais”, os cabeças, os chefões, que permitem adentrar nesse lamaçal de asneiras. Recriminar a tv somente não é prudente, se a mesma for utilizada de maneira produtiva revela-se em benfeitorias. Isso é endossado no livro A Sociedade do Espetáculo, de Debord, o autor faz uma dura crítica em relação a civilização das imagens:

As imagens que se destacaram de cada aspecto da vida fundem-se num fluxo comum, no qual a unidade dessa mesma vida já não pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente apresenta-se em sua própria unidade geral como um pseudomundo à parte, objeto de uma mera contemplação. A especialização das imagens do mundo se realiza no mundo da imagem autorizada, no qual o mentiroso mentiu para si mesmo. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não vivo. [p.13]

A classe teatral está em processo de caos: Escolas de teatro que se proliferam na busca da comercialização desenfreada ( como se ser ator fosse algo construído), anúncios de cursos ridículos e indignos, proliferação de intitulados artistas sindicalizados, “pseudo-profissionais” que trabalham de graça ( como se ator não comesse e não se sustentasse) ou que se supervalorizam impondo regras e cachês ( como se todos trabalhos sem cachê não tivessem valor)… Os atores da nova geração ainda estudam? ( pausa seguida de risos ) É certo que numa Era cujo sentido da vida beira o estado de subserviência e caos é necessário observar os fatos com cautela e desconfiança. Evoé Baudrillard, Schopenhauer, Debord!!!! Evoé Bazin, Foucault, Lacan, Freud, Nietzsche, Paulo Prado, Augusto dos Anjos!!!! Brecht, Artaud, Stanislawski, Grotowsky, Boal, Beckett….!!! Evoé! Evoé! Evoé a todos os seres pensantes e que me fazem pensar!Resta-me dizer – Amo o ofício do ator, mas confesso – a decepção é maior.

 

Fellipe Cartier é jornalista, ator e diretor.

Texto publicado 17/07/2008 – www.fellipecartier.blogspot.com

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