Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | | Foto: Internet
Não entendo a morte. Não tem como ser compreensível algo tão estúpido e sem explicação. Não sei lidar com a perda, isso é fato. Após anos sem aparecer num cemitério, mais precisamente, dezesseis anos – Morte de minha avó. Essa semana compareci no velório de uma grande amiga. É previsível que um acontecimento como esse gere atitudes inesperadas. E assim foi.
É impressionante como, naquele ambiente, questionamos nossas existências. É ali, naquele lugar tão frio, inóspito e sem qualquer tipo de esperança, temos a certeza que não somos absolutamente NADA. Muitos me conhecem e sabem que sou adepto a filosofia de Schopenhauer, então não seria novidade saber que a vida é um eterno sofrimento. Agora, viver esse sofrimento de forma intensa é algo assustador. Em se falando do filósofo supracitado “A Vontade é o substrato de toda a realidade” afirma. Segundo o mesmo, nossa existência perpetua-se na condição dos desejos nunca saciados. Sempre queremos algo e nunca estamos satisfeitos; Quando conseguimos alcançar o desejo, logo advém o tédio, e assim sucessivamente.
Recorro a Freud quando fala da pulsão desejante, pois diz que leva a morte. Todos esses questionamentos em meio a um velório. Meu pensamento é interrompido – Um corpo chega na capela ao lado. É um homem. O rapaz ( ou médico) olha o rosto do morto com uma cara de nojo, pega um maço de algodão com a ponta da tesoura e enfia com força na boca do morto. Fico perplexo olhando a cena. Pega outro maço e faz o mesmo procedimento. A cara de nojo continua. Logo, retira, com a mesma ponta da tesoura, um maço de algodão embebido de sangue do nariz do morto, trocando por outro limpo. A cara de nojo continua. Depois limpa os resquícios e prepara o corpo para o enterro. A mesma tesoura serve de corte para as flores jogadas ao corpo do morto. Isso acontecendo na capela ao lado sem nenhuma porta.
A morte é algo cruel, mais cruel é saber que um dia posso esta no mesmo procedimento pós morte. Talvez com o mesmo rapaz ( ou médico), com a mesma tesoura, no mesmo local. O cheiro de flor que exala leva-me a crer que o pós morte do mundo ocidental é tão estúpido quanto os procedimentos de tamponamento de um morto – Um monte de pessoas em frente a um corpo sem vida, chorando e falando frases feitas. Sem explicação!
Logo meu celular toca – É meu pai.
“Eu te amo, pai! Avisa a mãe que eu amo ela também!”
Essas foram minhas palavras finais. Minha voz embarga, meu soluço vem e cá estou eu chorando feito criança; Relembrando minha infância e meus momentos; Revivo o velório de minha avó.
Fellipe Cartier é jornalista, ator e diretor.
Texto publicado 07/08/2009 – www.fellipecartier.blogspot.com



