Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Fotos: Chris Ameln e Fabrício Pimentel
Alexandre Ignácio Alves fala sobre a inversão do retrato como gesto afetivo, sua formação marcada pelo fazer manual e pela família, e um processo criativo que valoriza o pensamento bruto da pintura.
Antes de conhecer Alexandre Ignácio Alves em pessoa, fui atravessado por sua obra. Pelas telas. Pelos traços que não pedem pressa, que exigem permanência. Há algo de profundamente expressionista em sua pintura, não no excesso, mas na densidade. Cada detalhe parece pensado como quem constrói silêncio e tensão ao mesmo tempo. A paisagem, o retrato, a natureza deixam de ser apenas gêneros para se tornarem estados de espírito. Quando o encontro finalmente acontece, a pintura se confirma no gesto. Alexandre carrega na forma de falar, de ouvir e de se colocar no mundo a mesma delicadeza firme que habita suas telas. Generoso no trato, humilde na presença e dono de um talento raro, ele reafirma algo que a arte verdadeira sempre revela: a obra não se separa do artista, ela o prolonga.
Paulistano, Alexandre Ignácio Alves constrói há mais de 30 anos uma trajetória marcada por investigação e persistência. Sua pesquisa parte de uma pergunta que, longe de ser nostálgica, é radicalmente contemporânea: ainda faz sentido pintar paisagens, retratos e naturezas-mortas hoje? Em vez de abandonar esses gêneros históricos, ele os reinventa, tenciona seus limites e prova que tradição e contemporaneidade não são opostas, são camadas. Seu trabalho já ocupou espaços fundamentais da arte brasileira e internacional, com exposições individuais e coletivas em instituições como o Centro Cultural São Paulo, a Pinacoteca do Estado, o Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, o Memorial da América Latina, entre outras. Suas obras integram importantes acervos públicos e privados, como o do Palácio do Planalto, MAR – Museu de Arte do Rio, MAC-RS, SESC Pinheiros, Museu da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e a Coleção de Arte da Cidade.
Nesta entrevista para a coluna Midiáticos, ele reflete criticamente sobre raça, capitalismo e as falhas estruturais das políticas culturais no Brasil, apontando os limites do fomento e os desafios para a diversidade e a permanência artística. Com vocês: Alexandre Ignácio Alves.
FELLIPE – Em sua exposição ‘Monográfica’, percebe-se a presença (direta e indiretamente) de familiares e amigos em suas obras. Esse seu olhar sensível pelo entorno vêm da infância? Quem foi essa criança e como descobriu-se artista?
ALEXANDRE- Em um dado momento da trajetória artística, escolhi falar sobre alguns temas clássicos da pintura. A pintura de retratos foi um desses assuntos. Dentro dessa temática, percebi que o retrato era uma encomenda do retratado. Resolvi fazer o contrário, ou seja, convidar pessoas próximas para serem retratadas. Inverti a lógica. Sempre gostei de desenhar, mas a decisão da carreira artística veio na adolescência. Mas, sim, o olhar vem sendo desenvolvido desde a infância. Venho de uma família que trabalha com as mãos, minha mãe, avó e tia trabalharam a vida inteira na indústria da moda, essa mesma tia é uma artista amadora e me deu os primeiros rudimentos, meu dois avôs exímios sapateiros, e um bisavô, que apesar de eu não ter muita informação, foi um artista.

FELLIPE – Essa mesma família a apoiou quando decidiu apostar na carreira artística?
ALEXANDRE – Sim e não. Ao mesmo tempo que apoiavam meu desenvolvimento artístico, temiam que seria uma carreira difícil e arriscada. Principalmente meu pai achava que deveria ir para a publicidade.
FELLIPE – Qual a sua opinião para se ter um protagonismo racialmente democrático no Brasil?
ALEXANDRE – A única forma seria acabar com o capitalismo (rsss). Numa sociedade na qual o ambiente é de competição absoluta e com limitação de espaços a serem ocupados, algum grupo fica de fora da festa. Escolheram a gente. Não acho possível neste tipo de lógica, haver a possibilidade de uma verdadeira democracia, quanto mais uma racial.
FELLIPE – De que forma as suas obras e seus estudos expostos revelam o processo criativo e o trânsito entre gêneros clássicos e referências empíricas?
ALEXANDRE – Estas anotações são importantíssimas. Elas preservam um tipo de pensamento gráfico-pictórico, que se desenvolvem na minha linha temporal de raciocínio. É um tipo de base, de estrutura de trabalhos que, em algum tempo, poderão ser finalizados. É em última instância o pensamento bruto do trabalho.
FELLIPE – Como você avalia as políticas públicas que visam ampliar a inserção dos artistas/projetos no mercado de trabalho?
ALEXANDRE – Não é um assunto que eu acompanhe de perto. Vejo que existem programas nas áreas ligadas à educação. Mas acho que não devem ser o suficiente.
FELLIPE – Quais desafios você enxerga na relação entre políticas públicas de

cultura e a realização de grandes mostras, especialmente no que diz respeito ao acesso, transparência e continuidade?
ALEXANDRE – O Brasil não é um grande exemplo do uso do “Soft Power”, pensando em políticas públicas e nas artes visuais. A grande vitrine sempre foi a música, dentro e fora do país.
FELLIPE – Como você percebe os principais entraves nos mecanismos de incentivo às grandes mostras no Brasil e de que forma esses problemas afetam a diversidade e a renovação da cena artística?
ALEXANDRE – Entra um pouco no que respondi nas respostas acima, a lógica do sistema de incentivo é de competição. Elegem-se alguns nomes que acabam circulando mais que outros. Temos muitos bons artistas e muito poucos espaços expositivos. Falta incentivo para pesquisa, falta fomento para as produções. E veja que as artes visuais ainda têm algum olhar. A dança por exemplo é um lugar desértico em termos de incentivo. Falta a circulação entre os estados. Ainda estamos presos ao eixo SP/RJ.
FELLIPE – Na sua visão, quais são as falhas estruturais dos programas de fomento à arte no Brasil que mais impactam artistas em início ou meio de carreira?
ALEXANDRE – Uma coisa que tenho refletido sobre. Mesmo depois de mais de 30 anos de carreira, tenho que disputar espaço com jovens começando. É injusto para os dois. Seria mais justo se a competição, já que esse é o modelo, acontecesse entre os iguais. Um fomento de médio prazo para as pesquisas. Um ano para pensar uma exposição, produzi-la materialmente e executivamente, pleitear um espaço, é muito pouco tempo. Fora que para alguém que está começando e não tem amparo financeiro, acaba sendo inviável uma carreira. É desencorajador.
FELLIPE – Se fosse fazer um roteiro de sua vida, o que não poderia faltar? Qual seria o clímax e seu projeto futuro?
ALEXANDRE – Eu, dentro da realidade brasileira e de muitos artistas, tive uma longevidade produtiva. Nada fácil. Muito custo pessoal para chegar até aqui. Sou grato por tudo mesmo assim. Tenho projetos engavetados que gostaria de realizar, uma mostra de grandes formatos. Tenho um especificamente ligado a paisagem. Fala sobre a ligação entre arte, ciência, política, racismo ambiental e pintores negros entre o XIX e o XX
FELLIPE – “Se está na Mídia, é Oficial”, o que você oficializa aqui?
ALEXANDRE – Oficializo que mídias oficiais como esta, deveriam existir em abundância. É muito bom poder ter um espaço para poder se expressar. Muito obrigado pelo convite.
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