Por Rihanna Riker | Mídia Oficial | Fotos: Arquivo pessoal
O que 2025 revelou e o que 2026 precisa transformar?
As experiências relatadas aqui não se restringem ao universo drag ou artístico. Elas expõem uma lógica mais ampla, na qual o respeito se torna moeda de troca e a dignidade passa a ser condicionada a quem você é, quantos te seguem ou o quanto você aparece. E isso precisa acabar.
2025 passou, mas deixou marcas claras. Algumas feridas abertas, outros aprendizados inegociáveis. Quem vive da arte, da presença, do corpo, da imagem e da entrega sabe: nem tudo que foi normalizado deveria estar existindo. Esse texto nasce da necessidade de dizer em voz alta o que muitos ainda sussurram.
Trabalho artístico não é favor. Nunca foi.
Se existe contratação, existe dever.
Não importa se o evento é grande ou pequeno, se o projeto é “alternativo”, se o cachê é simbólico ou existe promessa de visibilidade. Trabalho é trabalho. Paixão não substitui pagamento. Exposição não paga boletos. Aplauso não quita compromisso.
Honrar o combinado é o mínimo ético. Qualquer coisa fora disso é desrespeito.
Durante anos, artistas foram ensinados a agradecer por tudo – até pelo que não foi cumprido. Isso precisa acabar. Pontualidade, entrega, postura e excelência sempre foram exigidas de nós. Agora é hora de exigir o mesmo de quem contrata. Não existe parceira quando só um lado cumpre.
Diversidade não é discurso. É prática.
Eventos que se dizem plurais precisam refletir na imagem, no registro e na memória. Selecionar quem será fotografado, publicado ou lembrado revela muito mais do que estética – revela escolha política. E vivemos num ano muito difícil principalmente neste último campo que será tratado em breve. Quando apenas certos corpos aparecem, outros são silenciados. Quando apenas alguns brilham no feed, outros são apagados da narrativa.
Isso não é diversidade. É exclusão!
O culto aos números como nova forma de exclusão
Seguidores não definem talento. Fama não define relevância. Alcance não define impacto real. Ainda assim, vivemos um tempo em que métricas digitais passaram a funcionar como um filtro de legitimidade, determinando quem merece convite, brinde, visibilidade e até respeito. O que deveria ser apenas um indicador virou critério de valor humano, artístico e profissional.
Quando marcas, serviços, eventos e camarotes escolhem quem será visto apenas com base em números, reforçam um sistema elitista, raso e profundamente desigual. A lógica do engajamento substitui a escuta. A ‘viralização’ ocupa o lugar da trajetória. E quem sustenta cenas culturais inteiras, muitas vezes, permanece invisível porque não ‘performa’ bem para o algoritmo.
Essa exclusão não é abstrata, ela se manifesta em experiências concretas. Recentemente, vivi uma situação que ilustra bem esse cenário. Pelo segundo ano consecutivo, estarei em um camarote de Carnaval no Rio de Janeiro — um acesso pago. Acompanhando as redes sociais do evento desde dezembro, vi diversas celebridades e influenciadores recebendo em casa kits personalizados, repletos de produtos de marcas patrocinadoras. Ao questionar se haveria algo semelhante para outros participantes, a resposta foi que alguns itens estariam disponíveis durante os dias de desfile, no próprio local. Ainda assim, a diferença é evidente: o gesto simbólico, o cuidado antecipado, a visibilidade nos stories… tudo isso segue sendo seletivo. Não é apenas sobre brindes, é sobre quem é considerado digno de atenção antes mesmo de chegar.
Essa prática cria uma hierarquia silenciosa, mas eficiente. Um sistema onde alguns são constantemente reafirmados como “especiais”, enquanto outros, igualmente presentes, igualmente pagantes, igualmente parte da experiência, são tratados como figurantes. Isso não é estratégia de marketing inteligente; é segregação disfarçada de curadoria.
No campo artístico e cultural, o problema se aprofunda. Existem artistas que movimentam cenas inteiras sem nunca viralizar. Pessoas que constroem comunidade, linguagem, estética e resistência, mas que não cabem no formato rápido e descartável das redes. Desconsiderá-las é empobrecer a cultura, reduzir diversidade a discurso e confundir barulho com importância.
O culto aos números transforma relevância em espetáculo e invisibiliza processos. Ele normaliza a ideia de que só merece investimento quem já tem visibilidade, criando um ciclo fechado onde os mesmos corpos, rostos e narrativas ocupam todos os espaços. O novo vira ameaça. O diverso vira risco. O real vira secundário.
2026 não pode repetir 2025
O aprendizado precisa ser mais do que retórico, precisa ser prático, ético e estrutural:
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Trabalho precisa ser pago, não “compensado” com exposição;
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Acordos precisam ser cumpridos, independentemente do alcance de quem os firma;
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Visibilidade precisa ser distribuída, não concentrada;
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Diversidade precisa ser mostrada, não apenas anunciada;
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Relevância precisa ser revista, para além de números e métricas.
Chega de normalizar atrasos, exclusões e silêncios convenientes!
2026 começa com uma escolha: manter práticas ou escolher algo mais ético, consciente e verdadeiro.
Porque sem respeito, não existe cena. E sem cena, não existe futuro.
Se a cultura continuar sendo medida apenas por algoritmos, ela deixará de ser viva para se tornar apenas rentável. E isso não é evolução, é empobrecimento coletivo.
>>> Rihanna Riker (@rihannariker) é uma drag queen e artista transformista carioca criada por Bruno Moore. Atua há 7 anos no mercado artístico.
Diário Oficial é uma coluna aberta à população onde nosso leitor relata experiências, fatos e conjecturas do seu cotidiano.




6 Comments
Muito boa matéria…. showw
Querida, seu texto é interessantíssimo: transita por Marx e Foucault até chegar a Byung-Chul Han.
Arrisco-me a dizer que quem o lê até o final deixa de ser capturado por essa máquina repressora, corrupta e exploratória. As mudanças ocorrem do micro para o macro e é provável que você, autora deste belo texto, em breve se retire dessa pequenez de forma gloriosa. Sinto dizer, mas você não cabe mais aqui; sua consciência expandiu e este é um caminho sem volta.
O mundo atual parece feito para quem está na média — os medíocres, no sentido etimológico. Quem dá um passo à frente, não permanece. Essa estupidez é estrutural e imutável, o que explica por que as pessoas buscam “viralizar” (agindo como vírus).
O vírus estuda o território saudável, ataca, contamina e, após a exploração, descarta o que resta. É um ciclo no qual a maioria está imersa.
Podemos ainda problematizar: o que é a Arte? Se ela é filha da Cultura, onde está a nossa cultura hoje? Estamos nos tornando estéreis, consequência direta do uso excessivo dos smartphones e por outro lado a escassez de bons livros .
Com todo carinho e respeito, um grande beijo.
Texto interessante e muito oportuno nos dias atuais; onde,como o texto deixa claro,a “valorização” do artista está ligado ao número de seguidores!
Nossa só li verdades, arte e resistência muitas vezes fazemos show por amor a arte pq valorização não temos. Enfim que neste novo ano venha a valorização o reconhecimento e menos puxa saco de sub celebridades…
Querida que texto interessantíssimo , passa por Max, Foucault e chega em Byung-Chul Han.
Arrisco dizer que quem leu o texto até o final não é mais capturado por essa máquina repressora , corrupta e exploratória . As mudanças ocorrem do micro para o macro . Aposto dadas as circunstâncias, que a autora desse lindo texto em breve irá retirar-se de cena , de forma gloriosa. Você não cabe aqui . É isso é culpa da sua amplitude de consciência, processo irreversível após sua expansão .
Esse mundo é pra quem está na média , que são os medíocres . Quem dá um passo a frente não fica . Essa estupidez é estrutural ,não muda. Por isso que as pessoas viralizam ( agem como vírus) . E o que faz um vírus ? Ele estuda o território saudável , ataca , contamina e quando não tem mais o que explorar , DESCARTA . E isso é uma cadeia cíclica. As pessoas em sua maioria estão imersas nisso .
Além do mais podemos problematizar o que é Arte ? A Arte é filha da Cultura . E nesse momento, onde está Cultura? Estamos ficando estéreis a cada dia . Bjs
Parabéns amiga te a companhia a anos e seu o quanto você e dedicada a evolução . Super orgulhosa da Rihanna que se tornou , voa irmã 💕💕