Por Pedro Schwarz | Mídia Oficial | Foto: Agência Lusa
Muitos podem lembrar-se da atriz Fernanda Torres pelos seus trabalhos cômicos transmitidos na TV, principalmente a série da Rede Globo “Os Normais” (2001). No entanto, paralelamente ao trabalho de comediante, a filha da atriz Fernanda Montenegro realizou trabalhos dramáticos notáveis no cinema brasileiro, mostrando que é versátil.
O grande cineasta Walter Lima Jr, um especialista em adaptações de clássicos da literatura (“Menino de Engenho”, “A Outra Volta do Parafuso”) e criador de histórias fantásticas (“Ele, o Boto”), a dirigiu numa de suas obra-primas, adaptada do livro de Visconte de Taunay, “Inocência” (1983), em que interpreta a personagem de mesmo nome, levada a viver permanentemente num estado de “inocência” forçada – ou seja, virgem – pelo pai tirânico; Fernanda Torres tem talento para a tragédia.
A parceria com o outro Walter é antiga. Ela estrelou a primeira obra de destaque do cineasta Walter Salles, “Terra Estrangeira” (1995), a história de um jovem que viaja para Portugal tentando escapar da falta de esperança econômica do governo Collor, principalmente após o trauma do confisco da poupança; na Europa, ele se envolve com marginais, principalmente a personagem de Fernanda Torres, novamente trágica e romântica. Em seguida, fez aquele que talvez seja o melhor filme de Salles, embora pouco conhecido: “O Primeiro Dia” (1998), projeto de uma rede de TV européia, que bancou filmes de uma hora sobre a passagem do milênio, dirigidos por cineastas importantes. Nesse filme ela não é mais a marginal, mas aquela que se apaixona por um; novamente, tudo acaba mal.
Por fim, há o seu trabalho vencedor do Globo de Ouro, “Ainda Estou Aqui”, mais uma história de perda. É um filme típico de Salles: uma adaptação de um clássico da literatura, depois de realizar “Abril Despedaçado” e “On The Road”; e mais um projeto que abarca temas tipicamente nacionais, com ênfase nos problemas estruturais do país
A atriz mantém e renova seu perfil dramático, com um rosto expressivo e intenso, sem o lado exibicionista de outros artistas mais premiados, como Joaquim Phoenix . Seu prêmio é merecido.
Pedro Schwarz é cineasta, mestre em Audiovisual pela USP.



