Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | | Foto: Pixabay/StockSnap
O tempo, a prática, a prudência – Alguns atributos que concedem a sabedoria, segundo a filosofia oriental atestada no livro A arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, de Eugen Herrigel. No livro, o alemão conta a sua experiência como discípulo do mestre Awa Kenzou, com quem aprendeu a arte de atirar com arco durante os anos em que viveu no Japão como professor da Universidade de Tohoku. Um relato de suas experiências e das dificuldades que um indivíduo acostumado com o modo de pensar ocidental tem para aceitar as doutrinas básicas do pensamento oriental. Um recolhimento metódico e sistemático que conduz o homem a perceber, no mais profundo da sua alma, o inefável que carece de fundo e de forma.
A narrativa acontece pelo alemão Herrigel, um professor de filosofia, que vai ensinar aos japoneses a “cultura européia”.No entanto, para melhor aproveitar as horas vagas, o professor decide conhecer a cultura daquele povo. É apresentado a um Mestre Arqueiro a quem, no fundo, de início, despreza-o. Tenta enganá-lo seguidas vezes, não se submete à disciplina requerida e, afinal, é afastado por “incapacidade de aprender”. Indignado, tenta ser readmitido, o que de fato ocorre. O alemão apaixonado pela arte do arco, mostra em passagens o seu aprendizado até atingir a perfeição, o alvo, o Zen. Em meio ao sofrimento, o professor teve a difícil tarefa de desprender-se do seu ‘eu’ para atingir o disparo perfeito. O alemão, intrigado perguntou como isso seria possível, o tal disparo perfeito, se não fosse o “eu” dele que fizesse isso acontecer. O mestre respondeu: “Algo dispara”. Não tomando por satisfeito, pergunta: “Como posso esperar pelo disparo, esquecido de mim mesmo, se eu não posso estar presente?”
Mestre: – Algo permanece na tensão máxima.
Professor: – E o que é esse algo?
Mestre: – Quando o senhor souber a resposta, não precisará mais de mim. E se eu lhe der alguma pista, poupando-o da experiência pessoal, serei o pior dos mestres, merecendo ser dispensado. Por isso, não falemos mais. Pratiquemos.
Assim fez. Numa análise particular a respeito desse trecho percebo que a natureza misteriosa dessa arte se revela unicamente neste combate do arqueiro contra ele mesmo, e por isso seu ensinamento nada tem de essencial, se prescindir da aplicação prática daquilo que em seu tempo exigiam as lutas cavalheirescas. A verdadeira compreensão dessa arte só é possível àqueles que dela se aproximam com o coração puro, despido de qualquer preocupação. Em relação ao tiro com arco, pouco importa um resultado exterior, mas uma experiência interior, muito mais rica.
Daí uma comparação do arqueiro, com um método naturalista de interpretação – De um lado Stanislavski ( criador da técnica realista de interpretação), do outro a visão do arqueiro que acerta no alvo sem mirar, quando não se está tenso. Ao estudar o primeiro supracitado, ator é condicionado a uma consciência absoluta de tudo que está à sua volta enquanto atua (exercícios de atenção) e faz sempre um jogo de equilíbrio entre a atenção fria, que seria a marca, o local da luz, o texto e a atenção quente que seria a emoção da personagem. Dominar isso faz parte e é o objetivo dos exercícios de Stanislavski. Essa busca, não do domínio consciente daquilo, mas sim do inconsciente, aumenta o número de atenções até um ponto em que o ator não tenha mais como raciocinar, analisar e tirar dali o reflexo, permitindo ao inconsciente emergir e dar a resposta.
Esse livro propõe diversos ensinamentos que perpassam diversos segmentos da vida. Direto, simples e acessível –um entendimento sem a visão pragmática. Enquanto os, ocidentais, acostumados a adquirir bens materiais, a vislumbrar estabilidade financeira e a falta de percepção na essência das coisas. Surgem os orientais que tentam adquirir a calma, a leveza, a elegância e a sabedoria calcada na prática. Dali Herrigel, que até então tivera a incumbência de ‘ensinar’ coisas mortas de uma filosofia alemã, saiu tendo aprendido uma lição de vida incomparável.
Fellipe Cartier é jornalista, ator e diretor.
Texto publicado 23/08/2008 – www.fellipecartier.blogspot.com



