Por Fellipe Cartier | Mídia Oficial | Fotos: Arquivo pessoal
Desenvolveu uma proposta pioneira para a introdução da Inteligência Artificial na Educação Básica, por meio do Referencial Curricular em IA para o Ensino Médio. Atualmente, em conjunto com a UFRGS e Unipampa, implanta o componente curricular obrigatório em Inteligência Artificial nas escolas da rede estadual do Piauí.
Conheço ele bem antes de ser pai da Ana Laura e Carolina; Antes mesmo de ser professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha (IFFAR) na área da Computação. E olha que coincidência: a Educação e a Arte nos uniu. De colegas no ensino médio no Colégio Centenário, em Santa Maria/RS (lá pelos idos de 1997), parceiros de cena no extinto Grupo de Teatro Evoé (nesse mesmo período) a amigos/irmãos para o resto da vida. Sou fã! E a cada encontro em famílias revivemos uma amizade que perdura 28 anos. Já viajamos para o exterior, já tivemos crise de risos em locais improváveis, já causamos nos teatros da vida e ele já esteve comigo nos momentos mais alegres e doloridos. Hoje, doutor e pós-doutorando em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) , é pioneiro como autor do primeiro Currículo de Referência em Tecnologia e Computação no Brasil publicado pelo CIEB. Além disso, faz parte da Sociedade Brasileira de Computação (SBC). Recentemente, participou na coordenação e validação da Norma sobre Computação na Educação Básica – Complemento à BNCC junto ao Conselho Nacional de Educação no Ministério da Educação (CNE/MEC) e auxiliou na elaboração do Currículo de Computação do Uruguai proposto pelo CEIBAL; E não pára por aí… é coautor das Notas Técnicas 21 e 24 do CIEB com a temática “Inteligência Artificial na educação básica: novas aplicações e tendências para o futuro”. Em conjunto com uma iniciativa da Fundação Telefônica Vivo, contribuiu para a implementação da Computação em 15 secretarias estaduais; Também coautor do livro “Inteligência Artificial na Educação Básica” pela editora Novatec. Em paralelo, mantém os sites Computacional e IA@Escola onde executa projetos de ensino, pesquisa e extensão; Auxilia estudantes, professores, gestores, escolas e secretarias na implementação da Computação nas redes de ensino. Meu povo, como sempre digo, gosto de trazer os ‘meus’ para perto. Esse cara é um gêniozinho e sempre foi. É um amigo querido e um irmão para todas as horas. Caro leitor, aprecie sem moderação!
FELLIPE – Quais as diferenças da Educação que recebeste com a Educação que a Laura e a Carolina (filhas) tem?
CHRISTIAN – A educação delas está muito mais focada no desenvolvimento do pensamento crítico e na capacidade de resolução de problemas. Além disso, há uma integração natural da tecnologia nas suas rotinas (preferencialmente sem o uso de telas), mas principalmente por meio de experiências práticas e com situações rotineiras. Elas são incentivadas a serem protagonistas do seu próprio aprendizado, sempre estimulando a criatividade e o raciocínio lógico. Este último é muito importante, pois é a base dos algoritmos.
Com sua esposa Tassiana e sua filha Ana Laura. Foto: Arquivo pessoal
FELLIPE – Estação de rádio caseira, estúdio de edição de vídeos, equipamentos de última geração e demais tecnologias, são lembranças que trago nas lembranças de nossa convivência na juventude. Esse gosto por criar um sistema onde se tem o controle te satisfaz no quê e porquê?
CHRISTIAN – Sim, é verdade que vivíamos em um mundo analógico, mas isso mudou radicalmente. Hoje, a tecnologia digital está integrada em quase todos os aspectos de nossas vidas. Ela está presente em dispositivos que usamos diariamente, como celulares, relógios inteligentes, sistemas de som e até em documentos digitais, como carteiras de motorista e assinaturas eletrônicas. Além disso, está em nossas casas, com geladeiras inteligentes, lâmpadas controladas por aplicativos, assistentes virtuais e câmeras de segurança. Até mesmo os brinquedos interativos das crianças refletem esse avanço. A tecnologia se tornou tão indispensável que é difícil imaginar nossa rotina sem essas inovações. Os sistemas inteligentes é que muitas vezes controlam nossas vidas e não ao contrário (risadas).
FELLIPE – Explique para a gente o que é Computação?
CHRISTIAN – Muitas pessoas acreditam que a Computação se resume a saber usar máquinas: manipular dispositivos, navegar na internet, utilizar aplicativos, pesquisar informações e assistir a vídeos. Contudo, essa é uma visão limitada e equivocada. Computação vai muito além do uso superficial das ferramentas tecnológicas. Trata-se do entendimento mais aprofundado de como as máquinas funcionam, como elas interagem entre si, como processam e armazenam informações, entre outros. Envolve o estudo dos princípios que regem o hardware e o software, além da lógica por trás da criação de programas e sistemas que facilitam nossa vida. Mais do que consumir tecnologia, a Computação é sobre projetar, inovar e compreender as bases que sustentam a transformação digital do mundo moderno.
FELLIPE – Em seu site www.computacional.com.br você executa projetos de ensino, pesquisa e extensão para auxiliar estudantes, professores, gestores, escolas e secretarias na implementação da computação nas redes de ensino. Quais os últimos desenvolvidos?
CHRISTIAN – Tenho contribuído com diversos projetos inovadores. Recentemente, junto com um grupo de pesquisadores, implementamos uma disciplina obrigatória de Inteligência Artificial no ensino médio do estado do Piauí. Essa iniciativa, pioneira em todo o continente americano, está gerando grande repercussão. Os alunos exploram os fundamentos da IA, compreendendo como ela raciocina, processa informações, aprende, percebe o mundo e interage conosco. Além disso, discutem as questões éticas e os impactos sociais relacionados ao uso da IA. É um passo essencial para preparar as futuras gerações para um mundo cada vez mais tecnológico.
FELLIPE – Stuart Russell, autor do livro “Inteligência artificial a nosso favor: Como manter o controle sobre a tecnologia”, pontua o perigo da relação: Criador – homem e Criatura – máquina. Assim como nossa relação com o mundo virtual, a ideia principal do livro é de não nos tornarmos reféns de nossas próprias criações. Como você avalia essa relação?
CHRISTIAN – A tecnologia, especialmente a IA, traz enormes benefícios, como acessibilidade ampliada, personalização de serviços e otimização de processos. É como se ela nos desse super poderes, pois é uma extensão do nosso corpo. Porém, também introduz riscos, como vieses algorítmicos, diminuição da privacidade e possíveis consequências sociais indesejadas. Russell defende a criação de sistemas que considerem valores humanos e limites claros, promovendo um “design alinhado” em que a IA priorize o bem-estar humano em suas decisões. Isso vai muito com a abordagem da UNESCO, onde a IA deve ser centrada no ser humano. Portanto, a chave para equilibrar essa relação está na conscientização, educação e regulamentação. Precisamos formar cidadãos e profissionais capacitados para compreender os fundamentos da IA, explorar suas potencialidades, reconhecer seus limites e questionar suas implicações sociais e éticas.
FELLIPE – Quais os benefícios da tecnologia, em especial a Inteligência Artificial, na Educação?
CHRISTIAN – A tecnologia, especialmente a IA, traz inúmeros benefícios para a educação, ampliando o aprendizado, personalizando o ensino e promovendo a inclusão. Ferramentas de IA possibilitam o ensino personalizado, adaptando conteúdos e ritmo às necessidades de cada aluno por meio de sistemas tutores inteligentes. Além disso, promovem acessibilidade, como no uso de tecnologias que leem textos e reconhecem imagens, auxiliando alunos com deficiências. Também otimizam a gestão educacional, automatizando tarefas administrativas e permitindo que os professores foquem no ensino. Além disso, o avanço das tecnologias e a chegada da 5ª Revolução Industrial indicam que os futuros empregos exigirão cada vez mais conhecimentos em IA, tornando fundamental que a educação prepare os estudantes para interagir com máquinas inteligente, compreender algoritmos, saber treinar um sistema de IA e utilizar tecnologias digitais de forma crítica e eficiente.
FELLIPE – Como a escola e os professores podem contribuir na formação de estudantes na “Era Digital”?
CHRISTIAN – A escola e os professores desempenham um papel crucial na formação dos seus alunos na “Era Digital”, preparando-os para interagir de forma crítica, ética e eficiente com as tecnologias que moldam o mundo contemporâneo. Para isso, é essencial integrar os fundamentos/conceitos oriundas da área da Computação ao currículo, ensinando habilidades como o uso responsável de ferramentas tecnológicas, análise de dados, entender como a tecnologia digital funciona e também desenvolver o pensamento computacional. Professores podem promover aulas práticas que envolvam o uso de inteligência artificial, programação e exploração de soluções digitais para problemas do dia a dia, desenvolvendo competências essenciais como resolução de problemas, criatividade e trabalho em equipe. É comum que computadores sejam utilizados apenas para o consumo de conteúdos. No entanto, no ambiente escolar, a computação deve transcender o uso passivo de tecnologias. É importante fomentar a compreensão crítica e o envolvimento ativo, capacitando os alunos a não só utilizarem, mas também entenderem e criarem tecnologias. Essa estratégia os prepara para serem protagonistas no mundo digital, capazes de resolver problemas e inovar.

FELLIPE – Em 2015 você participou de um feito pioneiro, onde iniciou o processo de inclusão da Computação no currículo Nacional. Como foi isso?
CHRISTIAN – Ihhh, longa história, mas vamos lá. Inicialmente, recebi o convite da Sociedade Brasileira de Computação para desenvolver o que seria a primeira versão – um esboço – do que hoje conhecemos como a Norma da Computação na Educação Básica. Esse documento passou por um longo processo de evolução, incluindo debates, audiências públicas e refinamentos colaborativos, até chegar ao Ministério da Educação (MEC). Foi um trabalho extenso e desafiador, mas que resultou na versão consolidada que temos atualmente.
A inclusão da Computação na Educação Básica já deveria ter sido contemplada na primeira versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), publicada integralmente em 2018. No entanto, devido a questões polêmicas, acabou sendo deixada de fora naquele momento. Apesar disso, o compromisso com a inclusão da Computação já estava previsto em atos normativos daquele período. Hoje, felizmente, essa inclusão é realidade e está assegurada por lei.
A Norma da Computação, que complementa a BNCC, tem como objetivo garantir que todos os estudantes, independentemente de fatores como nível socioeconômico, raça, gênero e escola em que estudam, tenham acesso aos seus fundamentos. Em outras palavras, a Computação na Educação Básica passa a ser um direito de todos e não privilégio de alguns.”
FELLIPE – “Se está na Mídia, é Oficial”, o que você oficializa aqui?
CHRISTIAN – A tecnologia digital e a inteligência artificial já estão profundamente integradas em nossas vidas e transformaram de forma irreversível a maneira como trabalhamos, nos comunicamos e interagimos com o mundo. É fundamental conscientizarmo-nos de que essas inovações não são uma moda passageira, mas uma realidade permanente que continuará a evoluir. Aceitar essa transformação e buscar compreender suas possibilidades e limitações é essencial para aproveitar ao máximo seus benefícios. Em vez de resistir, é hora de nos adaptarmos, adquirindo as competências necessárias para navegar e prosperar nesse novo cenário, seja no âmbito profissional, educacional ou social. A era digital já chegou, e cabe a nós fazermos dela uma aliada para alcançar um futuro mais eficiente, inclusivo e inovador. Ela veio para ficar.
Mais informações:
- @christian.brackmann
- http://www.computacional.com.br
- www.ianaescola.com.br
Fellipe Cartier é jornalista, ator e diretor.



